Casa de Preto Velho


Acordei com alguém me chamando, era uma voz firme, masculina, de idade, que dizia meu nome. Abri os olhos assustado, o cachorro estava de orelhas em pé, mas ninguém eu via no meu quarto além de mim... virei novamente para dormir, olhei no celular e ainda eram 5:32 AM. A voz repetiu meu nome uma vez mais, eu estava meio desperto e meio dormindo e resolvi não abrir meus olhos, apenas respondi com algum resmungo perguntando o que queria. Senti um sorriso na voz e acreditei que deveria ser algum amigo, com algum recado ou alguma nova lição.

Sentei-me na cama, ainda com os olhos e janelas fechadas. O ventilador era o único som por um momento, antes que a voz me perguntasse: "E se pudesse, o que faria"? Hesitei por alguns segundos e, em pensamento, me questionei que tipo de pergunta era aquela... 

De repente, senti como se uma multidão invadisse meu quarto, havia um turbilhão de presenças que se aglomeravam ao meu redor e, ao mesmo tempo, todo meu corpo se aquecia e se esfriava, como se eu estivesse em outro lugar diferente do meu quarto, quase escuro, com meu cachorro, que agora dormia. Quis abrir os olhos, mas algo me levava a continuar silente, quieto, esperando... somente esperando.

Começou com um som de berrante, retumbante, seguido de tambores e risadas ao ritmo de um maracá bem ritmado. Um cheiro acre e um sabor de fumo, de marafo, de águas doces e salgadas... meu coração começou a bater mais forte, minha respiração mais intensa, minhas mãos trêmulas e todo meu corpo como se quisesse dançar envolvido pela festa. A voz voltou a dizer meu nome e, novamente, perguntou: "E se pudesse, o que faria"? Eu respondi prontamente: "Eu posso e farei"!

Como em um grande coro, todos disseram meu nome e senti como se toda aquela energia entrasse em mim para se hospedar... Abri os olhos, com o rosto molhado pelas lágrimas, e fiquei em silêncio, por um tempo, apreciando-me em solitude.

Eu posso... e farei!


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Elton Francisco - São Paulo, Fev-03-2021 - 11:16 PM

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