A Dança da Virgem


Chegou de madrugada, sem cerimônia, de um jeito simples e devagar. Sentou-se na beirada da cama, ficou em silêncio me observando, calada, olhando até que eu pudesse me dar conta de quem era. Aos poucos, chamou outras para se sentarem ao lado. Ela, a Velha, tinha um ar sereno de quem tem o tempo ao seu favor. Sem qualquer palavra, entendi que me pedia para apaziguar meu coração e aceitar o tempo. Aceitar o que chega e o que vai... aceitar o ciclo do tempo em que ainda estamos presos. Seu nome era Inanna, como a deusa. Pediu-me calma, sem qualquer palavra pronunciar.

Depois ela me apresentou a Grande Mãe, que sorriu e deu o nome de Maria. Com um véu fino sobre o rosto, disse-me que preciso perdoar a mim e aos outros, pois fazemos o que podemos com o que temos, no tempo que temos. Abraçou-me e disse para eu lembrar do mar, de onde a vida veio e para onde a vida vai... emocionado, deixei-me embalar em seus braços, sentindo um amor profundo por tudo que crio como meu. 

Ela se levantou e então veio a Virgem, negra, jovial, pura e puta, que desnuda dançava pelo quarto. Havia leveza em seus gestos, um jeito doce e selvagem de quem traz a santidade na luxúria, sedutora e perigosa como são os desejos que temos - e desconhecemos. Ela dançava feliz e apresentou-se como Oxum, a deusa ilibada dos sonhos yorubá. Ora serpente, ora angelical, convoca-me a sentir novamente o desejo de vida, abundante, presente no sexo e na carne que ingerimos na forma de alimento. Meu corpo vibrou e sentimentos estranhos vieram até mim... levantei-me e me vi dançando, rindo, com os braços soltos e o corpo livre.

Quando acalmei, uma pequena Criança de cabelos crespos se aproximou, com uma boneca de pano nas mãos, e se apresenta como Ana... pequena Ana. Disse-me que é preciso um olhar doce e inocente para reconhecer o poder do futuro... e, assim que disse, saiu.

Ana, a Velha, a Mãe e a Puta... saíram todas para eu me ver, sozinho, cheio de uma nova energia. Perguntei-me do resto e disseram que logo os cavaleiros iriam se aproximar para um novo momento... e então acordei.


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Elton, de Francisco - Abril-27-2021






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