A Paz do Outro em Mim
Marina,
hoje eu pensava sobre o silêncio e o vazio, em meio ao caos que se tem instaurado em meus dias. Ontem, quando cheguei do médico, adormeci sentado enquanto tentava meditar. Parece que há tanto a acontecer que, ao mesmo tempo, nada acontece. É o paradoxo da vida sem sentido, eu diria, quando o tempo é ocupado pelo que não importa.
A existência é efêmera. A todo momento, ainda que não tenhamos consciência, refletimos na vida externa nossa vida interior. Essa máxima verdade nos diz que somento podemos mudar o que antes mudamos em nós mesmos... isso é doloroso, Marina, pois é como se tivéssemos em nós toda a responsabilidade por fazer da vida expressa o que sentimos no íntimo: isso é solidão, isso é solidão. Como poderíamos, meu amor, viver uma paz na vida se não conhecemos a paz em nós mesmos? Percebe o quanto isso nos faz solitários?
É a nossa companhia, perene, que encontramos em cada um com quem nos relacionamos. É o que entendemos de nós que vamos ver naquele que cruza nosso caminho. O desejo que temos é a falta que sentimos (sem saber) dentro de nós... isso é dolorido, repito, meu amor. É dolorido, pungente, profundo. Somente seria possível encontrar a paz se escutarmos nosso silêncio... somente é possível preencher nosso vazio, se aceitarmos que ele existe para que possa ser preenchido por nós... somos nós que nos preenchemos, ainda que para isso precisemos encontrar um "outro" que expresse o que não vejo.
Meu pensamento está voando, Marina, pela noite que cresce e por essa escuridão da madrugada que me deixa sem vontade de dormir... vou tomar um chá, misturar anis com alface e esperar que meus sonhos digam mais do que busco em mim.
Sempre seu, com profundo amor.
Francisco
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