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Sou teu...

Ainda que os falos se prostem à minha frente, Ainda que a virilidade se faça presente, Ainda que haja mil corpos com desejos e duas mil imagens de beleza... Ainda que se faça silêncio em todos os corpos e que castrem toda juventude... Serei teu, amado amigo, serei teu!   Mesmo com imagens de homens, Mesmo com o desejo dos meninos, Mesmo com o assédio masculino, Mesmo com as dores da saudade, Mesmo com a nossa distancia física, Sou teu e teu serei até o fim, Terás meu corpo, mente e coração.   Serás leão e domador de minhas farsas, o senhor que assegura minha vida, e o ar que faz o meu viver. Dono de meus pensamentos e sempre do meu gozar. Sem pudor. Por ti tenho amor. Eu sou teu, amado amigo, eu sou teu!   Os falos morrem e as imagens somem, os meninos envelhecem e partem. Nada é eterno. Mas sou teu enquanto existir. Michael - Maio, 18. 1995

A dulce paz...

Aconteceu novamente, Claire. Como sempre há um vento frio que entra pelos meus poros e me faz repensar se há vida. É um vento intenso, dorido, que ainda assim não me arrebata a paz! É estranho ser indiferente ao vento. Ele, sempre ele. Ele, o outro. Como ele foram tantos, e tantos passaram. Não é a nossa sina? Não é essa nossa verdade, nossa vida? Ter o inferno no outro, porque é o outro que nos conta quem somos. E quem somos senão aquelas pequenas imagens por que nos tomam? Não somos, Claire... Se fôssemos, nossas imagens seriam sempre as mesmas. E não são, porque o outro – assim como ele – só pode ver o que sabe, o que conhece ou o que já experimentara de fato ou por um conto que ouvira em um lugar qualquer... Não, Claire... nossas imagens não são as mesmas. Elas são o que o outro – e ele – quer que elas sejam. Somos vítimas de nossas imagens e são elas – e somente elas – que contam aos outros o que somos (e são os outros que nos dizem!). Mas como eu dizia, acon...

O Trem

O trem que passa, passa e passa Não vê os patos que sobrevoam a relva, E tampouco reconhece a asa quebrada daquele que se desvia do bando a cair..   O   trem   corre. O   pato   cai.   Sabe onde vai o trem, Sabe onde cairá o pato!   Sem sorrisos no céu o sol escalda E testemunha o fim: O trem pára. O pato cai.

Concubina, a louca

Ela tinha dedos largos, cumpridos e cheios de marcas do tempo. Do cigarro barato e dos bordéis que freqüentava no centro da Lapa. Da cabeleira vasta e vermelha, poucos fios caiam-lhe sobre as têmporas acinzentados pela escolha da vida que tinha. Poucos dentes compunham-lhe a face cansada, sua boca rota e os olhos vítreos como se mortos para a luz ofuscantes e mofos das camas onde se vendia. E se declarava concubina, a louca. Sim, em sua insanidade imaginava-se capaz de sonhos, de devaneios onde seu poder se misturava às bebidas quentes de final de noite e suas roupas, rasgadas, seu preço barato pago pelos caixeiros viajantes. Apelidavam-lhe de bruxa. Sempre em desalinho, tentava sanar sua carência nos jogos de azar onde apostava sua indecência por moedas de barro. Dizia-se conhecedora dos segredos da vida, mas os únicos que habitavam sua mente eram das lembranças pérfidas de quando tentava exalar maldade e despertava alguma compaixão. E se declarava concubina, a louca. Viveu até ...

Charles Chaplin

Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato. E então, pude relaxar.    Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima. Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades. Hoje sei que isso é...Autenticidade. Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento. Hoje chamo isso de... Amadurecimento. Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo. Hoje sei que o nome disso é... Respeito. Quando me amei...

Apenas até logo

Já fazia tempo que não me preocupava tanto com a beleza ou qualquer outro aspecto externo ao me encontrar com pessoas. Muitas vezes ainda questionava em minha mente se havia algo mais por detrás da imagem, se em nudismo haveria de se revelar algo de extraordinário ou até mesmo bizarro... uma vez foi com um desses que se conhece pela Internet, no momento em que ele se descreveu comecei a criar em mim a idéia de como ele seria sem roupa, pelado e indefeso diante de mim: ri muito! Ele não era de todo magro ou feio no sentido laico da palavra, mas tinha um ar tão inocente quanto viril. Sim, conseguia ser viril e, ao mesmo tempo, perdido em seu corpo esguio e marcado pela ausência de experiência.   Mas isso foi antes, quando eu ainda habitava longinquos espaços e acreditava que estava apaixonada. Foi antes de ir a uma festa, em alguma sexta-feira, e ter experiências novas com pessoas novas e ambientes novos.   Lembro-me de que cheguei e pedi um dry martini enquanto sentav...

Uma nesga de felicidade

Ela tinha as mãos enrugadas pelo tempo, dedos marcados e sulcos profundos na face que denotavam um sofrimento passado. Entrou e sentou-se sem cerimônia. Olhou ao lado, repousou sua bolsa, tomou seus óculos de algum pacote e os colocou, suave. Abriu a sacola que trazia, tirou algum pedaço de pano com agulha e linha e passou a trabalhar, suave. Olhos compenetrados, mãos que rapidamente davam vida a um pedaço de pano, branco. Como seus cabelos, brancos. Como suas unhas e um pedaço de dente que se via no sorriso... Havia um prazer incomensurável no que fazia, enquanto embalada ao ritmo do vagão se perdia alheia aos dramas alheios que se misturavam aos cheiros do sábado, da vida, da solidão de tantos que se uniam em busca de um destino qualquer, suave e distante. Chega seu destino. Recolhe seu patuá, guarda na sacola e pega sua bolsa, ao lado. Tira seus óculos e suave desce, em sua estação, em seu ritmo em sua vida...