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Eu desisto

Eu desisto de pensar em humanidade e no humano como criador de sua história. Desisto de investigar a curiosidade, a indignação e a imaginação que poderia beneficiar a busca do incomum. Desisto de tentar entender os conceitos, pós conceitos e pré conceitos. Desisto da filosofia e de toda lógica que um dia me empregou. Desisto. Por um momento, enquanto em silêncio, quero agir como macaco. Quero ser como macaco. Quero andar como macaco. Gritar todos os palavrões que me vierem à mente e rasgar todas as teorias que me fizeram aceitar a racionalidade. Não quero raciocinar. Quero ficar em pé e olhar pela janela as ilações de minha alma. Quero olhar a fumaça de meu cigarro se misturar com a fumaça dos trens, dos carros, dos homens. Ah, os homens. Os humanos homens remanescentes de racionalidade. Vou soltar meu riso de macaco, perturbado pela contaminação de meus pulmões pelo tabaco. Perturbado pela elucubração que me retira o racional. Não, não quero pensar pois desisti. Desisti de man...

Tempo que foge

Descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicentemente, mas percebendo que faltavam poucas, passou a roer o caroço. Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos. Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio. Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos. Não gosto de assembléias ordiná...

Palavras que busquei na web

" Há pessoas que querem ser bonitas para chamar a atenção, outras desejam a inteligência para serem admiradas. Mas há algumas que procuram cultivar a alma e os sentimentos. Estas alcançam o carinho de todos, porque além de belas e inteligentes tornam-se realmente pessoas... Eu só me preocupo com a minha CONSCIÊNCIA e não com a minha REPUTAÇÃO.!!.Porque a minha CONSCIÊNCIA é o que SOU.!!.e minha REPUTAÇÃO é o que os OUTROS pensam de MIM.!!.isso não é problema MEU e sim DELES ...” "...mãe, você me pergunta se eu acredito em Deus. Eu te pergunto que deus? Tem sido minha missão te mostrar Deus nos homens, pois somente no homem ele pode existir.Não há homem pobre ou insignificante que pareça ser, que não tenha uma missão.Todo homem por si só influencia a natureza do futuro. Através de nossas vidas, mãe, nós criamos ações que resultarão na multiplicidade de reações, esse poder que todos nós possuímos, esse poder de mudar o curso da historia é o poder de Deus. Co...

Eternamento menino

Quase nada posso dizer e minha boca seca diante do que penso. Há um silêncio mudo e sem cor que se instala em mim. Um arrependimento quase real, quase vivo, de quando não me lembro de ser melhor. E nunca o fui. Pensei ter sufocado para sempre aquele desejo de morte que havia em meu íntimo. Pensei ter sufocado e perdido, para sempre. Mas esse para sempre insiste em me visitar enquanto nas paredes desse hotel procuro te ver uma vez mais. Enquanto na solidão que escolhi ainda vejo teu riso maroto, quase infantil. Teu riso da infância perdida, roubada pelos anos de trabalho, pelos anos de quando não sabias sorrir. Talvez o excesso de champagne me tenha tragado a consciência ou me arrebatado à lucidez. Não sei dizer, não sei confessar, não sei procurar. Não teremos sexo. Não te posso ter amor. Não te posso confessar por nossa indistinção e pelos laços de família que nos proíbem o amor, a paixão, o tesão. Tampouco sei o quanto me desejarias. O meu sonho insiste em ter-te sempre men...

A vida como no cemitério

A mãe faz tricô, O pai negocia, O filho luta na guerra, Tudo muito natural, acha o pai e mãe, O filho A mãe faz tricô, o pai negocia e o filho luta na guerra. Quanto tiver terminado a guerra, negociará com o pai. A mãe e o pai vão ao cemitério, Tudo muito natural, acha o pai e a mãe. A vida continua, A vida com o tricô, os negócios e a guerra... A guerra, os negócios e o tricô. O filho morto não negocia mais, A mãe e o pai vão ao cemitério, Tudo muito natural, acha a mãe e o pai A vida continua, A vida com o tricô, os negócios e a guerra A guerra, os negócios e o tricô, A vida como o cemitério...   Jacques Prevert  

Superação

Enquanto caminhava pelo calçadão, confessava a si mesma que o melhor a ser feito era esquecer. Repetia como um mantra o quanto teria de força para se esquecer, para superar e continuar sem se prender ao que passou.   Ainda que se lembrasse de Fausto, de Goethe, e ressentia-se por não haver um Diabo a quem confessar seu medo e frustração. Ressentia-se porque o que havia, em seu íntimo, nada mais era que uma canção mórbida para matar sua raiva, seu rancor e seu desejo real de devolver cada lágrima que caiu de seus olhos.   Não seria um deles, dizia. Não, não seria. Conseguiria prender uma vez mais seu lado nefasto e deixaria que sua luz, ainda que fraca, brilhasse. Não queria a luz, todavia. Não queria ter bondade alguma ou qualquer outra coisa que não deixasse seu íntimo sair e tomar todo seu corpo.   Parou. Sentou-se em um banco qualquer e, alquebrada, balançava-se para frente e para trás em um ritmo suave, como as ondas às suas costas, como os pássaros que ...

IGLESIA ABANDONADA

Federico García Lorca (1898 - 1936) (BALADA DE LA GRAN GUERRA) Yo tenía un hijo que se llamaba Juan. Yo tenía un hijo. Se perdió por los arcos un viernes de todos los muertos. Le vi jugar en las últimas escaleras de la misa y echaba un cubito de hojalata en el corazón del sacerdote. He golpeado los ataúdes. ¡Mi hijo! ¡Mi hijo! ¡Mi hijo! Saqué una pata de gallina por detrás de la luna y luego comprendí que mi niña era un pez por donde se alejan las carretas. Yo tenía una niña. Yo tenía un pez muerto bajo la ceniza de los incensarios. Yo tenía un mar. ¿De qué? ¡Dios mío! ¡Un mar! Subí a tocar las campanas, pero las frutas tenían gusanos. y las cerillas apagadas se comían los trigos de la primavera. Yo vi la transparente cigüeña de alcohol mondar las negras cabezas de los soldados agonizantes y vi las cabañas de goma donde giraban las copas llenas de lágrimas. En las anémonas del ofertorio te encontraré, ¡corazón mío!, cuando el sacerdote levanta la mula y el buey con sus fuer...