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Amar, verbo intransitivo

  Claire,   Reli o poema de Drummond enquanto tomava conhaque, ontem, com meu cão. Há dias que paramos, cansados, e ficamos sentados com nossos cachimbos em silêncio, a meditar em tudo o quanto fizemos ultimamente. Discutimos horas, meu cão e eu, a pensar no quanto amar nos torna o que somos, ainda que pela nossa natureza, nos limitamos a conceituar o amor e passamos a vida sem amar.      Por que circundamos o amor no outro quando podemos deixá-lo fluir de nós? Por que, Claire, nos afastamos de Deus e nos culpamos por cada ato que fazemos? Por que nos limitamos tanto e não nos permitimos experimentar?   Nenhum de nós tivemos respostas, Claire. Meu cão silenciava-se por não saber o que dizer quando questiono a culpa. O que é a culpa senão o limite que nos impomos? O que é a culpa senão o que aceitamos para pertencer a um grupo? O que é a culpa, Claire, senão a negação de amar?   Como amar, minha irmã, se não conseguimos aceitar o que somos - e quem somos - senão por um...

Redescobrir a amar

Queria que estivesse aqui, minha irmã. É estranha essa distância entre a gente quando há tanto que gostaria de compartilhar. Quando há descobertas que gostaria de dizer e discutir horas com você para que me dissesse o quanto estou louco. Estou louco, Claire. Louco. Há tempos tenho notado minha fragilidade, uma sensação estranha que não faz sentido, que não tem sentido, que não tem motivo. O que antes era, já não mais é. Não vejo graça no que antes me retinha tanto prazer, é como se Paulo, o apóstolo, estivesse certo ao dizer que deixamos as coisas de menino quando não mais somos meninos. Tenho um novo desejo, Claire. Um desejo vivo que pulsa em mim e toma forma: gesta em meu ventre e sobre às minhas entranhas como algo que ali sempre esteve  nunca o conheci. É algo que faz meu dia ser mais claro e minha vida mais repleta de energia... ah, Claire... quanto tempo perdido entre falos e peles que hoje não mais estão, não mais são, não mais têm importância... Estou a redescobrir a am...

Tornar-se

Há tempos eu o notava pelo campus, sempre com seu jeans surrado e sua camiseta branca, comum, que lhe marcava o tórax. Tinha os olhos escuros, cabelos curtos e a barba sempre por fazer. Um jeito moleque, de riso fácil que cativava qualquer que se aproximasse sem intenção. Ele nunca tinha intenção. Talvez lhe faltasse a malícia dos que experimentam e conhecem a maldade do mundo, dos que conhecem o mundo. E foi na sexta, antes do feriado de todos os santos, enquanto eu caminhava absorta e perdida nos cálculos mentais de minha vida acadêmica, que eu o topei de supetão e fui lançada ao chão. Ele também quase caiu e eu, vermelha, não me cabia de vergonha. Não conseguia levantar o rosto e ouvia um dos cães a ladrar quase uníssono com o riso dele, que se divertia a mirar-me. Tateei o chão, cega, em busca de meus óculos. Ele se inclinou e ajudava-me a levantar, repetindo sua falta de intenção. O cão, em algum lugar, continuava a ladrar e em mim um calor descia. Quanto não quis sua aprox...

A Caixa

E deu-se durante seu aniversário de sete anos, ao abrir o presente que ganhara de sua madrinha Júlia. Ela, eufórica, perscrutava os adultos com tamanha volúpia que todos seus sentidos se assemelhavam a bocas que os devoravam com a altivez das crianças inteligentes. Ela, Ananda, buscava nos adultos alguma nesga de sentido que a arrebatasse de seu mundo onde, livre, poderia simplesmente ser. Eles, os adultos, não lhe notavam qualquer traço de anormalidade e acreditavam que eram o suficiente os antigripais durante o inverno. Diria, quem os visse, tratar-se de algo comum, mas era um ritmo distinto em que giravam as rodas de existência. A caixa do presente era grande e púrpura, com laços dourados e fazia um barulho estranho ao balançar. Ananda ainda tentou imaginar que surpresa lhe traria aquela caixa, mas em sua infância faltavam-lhe dores para se comparar aos adultos e suas ansiedades. Sorriu e agradeceu à madrinha com um gesto quase doce, quase suave, simplesmente seu. Abraçou-se com...

Galinhas de Angola

Talvez as galinhas estivessem apenas com frio, isoladas na periferia e esquecidas pelos transeuntes que   não as reconheciam como parte do local. Eram apenas galinhas, diriam. Poderiam servir de alimento ou então de entretenimento aos que tivessem tempo para compreendê-las. Tive pena delas, com frio. Compadeci da situação e das pessoas que não as viam, que talvez pela constante vida que passaram na periferia não poderiam reconhecer nenhuma imagem distante da vida que tinham. Não me achava como elas. Eu, parte da periferia e de seus cheiros, não era uma delas. Tinha uma outra imagem que fluia de mim e me fazia à parte, nesse mundo tão meu. Aproximei-me das galinhas e tentei me comunicar, em silêncio, como se a ausência de palavras fosse o código que utilizávamos ao falar. Ajoelhei-me e as olhei com complacência. Elas, relutantes, soltavam um pio ou outro quando viravam a cabeça, desconfiadas, para que pudessem me ver de ambos os lados. Seus olhos brilhavam de frio e suas penas, er...

e Carmem...

Era tarde quando me sentei na poltrona, recostei-me e pensei em distrair-me durante o trajeto de volta. Levaria um tempo ou dois até que chegasse e, após a toalete noturna, estivesse novamente a repousar em meu leito. Mais um tempo e seria um novo dia, quando sol me saudaria como convite ao trabalho e tudo se iniciaria, como sempre.   Em meio ao burburinho, vejo quando ele se aproxima e se senta na poltrona ao lado. A sua frente, o outro se equilibrava com as bolsas de fraldas, mamadeiras e outros tantos apetrechos do pequeno. Era Carlos. Ele e Carlos que distraidamente riam a minha frente do dia que tiveram. O filho, no colo dele, dava sinais de que já dormia há um outro tempo. O chacoalhar do trem embalava seu sono, quase o meu sono, quase o nosso sono. O corpo relaxava e movia-se levemente a cada parada nas estações seguintes. Carlos sorria, mesmo em pé, embevecido pela conversa que mantinha com o outro.   Eram felizes e completos no que diziam, sobre o que diziam e como dizia...

Faz bem amar

Faz bem amar, um bem tão intenso e bom que me renova o espírito. Faz bem amar quem quer que seja, amar com intensidade, carinho, coragem. Faz bem amar o amigo e rir do jeito engraçado com que ele brinca sozinho, com que ele fala sozinho, com que ele come um sanduíche de pasta de amendoim sem amendoim... rs Faz bem amar aquela doce garota que nos atende no balcão da padaria e sempre tem um sorriso pela manhã, ainda que o dia tenha começado antes pelo horário de verão e todos estão ainda a dormir em suas casas. Faz bem amar quem senta ao nosso lado no metrô ou no trem, ainda que esteja distante do ideal de companhia silenciosa que gostaramos de ter ao nosso lado. Faz bem amar... É bom ter saudade e aprender a continuar mesmo distante. É bom sentir alegria ao receber um telefonema, ainda que em plena manhã de domingo quando dormir seria melhor que acordar... É bom amar, é bom conseguir olhar o que temos de bom mesmo quando tudo parece perdido. É bom escolher ver a beleza ainda que a tra...