Adormecido

Naquele dia, resolveu não dormir. Tinha medo de seus sonhos, das noites em que visitava lugares que nunca havia conhecido. Naquele dia, fez um café preto, pegou seu cigarro e pensou em nada, pois nada havia para se pensar. O silêncio se instalou e misturou-se à fumaça de seu cigarro. Calado. Café frio e a rua deserta abaixo de sua janela. E o medo dos sonhos, da noite e do desconhecido que vinha visitá-lo.

Lembrou-se da última conversa com sua pequena: ela o abandonou por conta do tédio. Dizia que ele nada seria, pois o tempo passava sem que algo fosse possível de ser feito para mudar. Sentiu-se abandonado pela pequena. Sentiu-se solitário, vazio, silente. Sentia falta de açúcar em seu café e de um cigarro de marca melhor. Sentia falta de gente, mas era em si mesmo que existia ninguém, nem ele mesmo.

O assobio do guarda noturno pareceu despertar-lhe do transe. Demorou reconhecer onde estava, sua janela e sua rua. De repente, viu seu gato subindo em qualquer lugar para saltar e quebrar as coisas de seu apartamento. Odiou seu gato, mas permaneceu parado, estático, amedrontado. Levantou-se, deveria se banhar para continuar acordado, embora se sentisse adormecido desde então. Como se não pudesse despertar e o pesadelo ainda ali estivesse.

Colocou uma camisa e desceu as escadas, queria caminhar. Dobrou a esquina e a rua parecia eterna. Caminhou. Andou por um momento e parou diante de outro lugar. Reconheceu ser o prédio da sua pequena. Olhou atento, como se não quisesse estar ali. Parou. Sentou-se na escada e adormeceu, finalmente.

 

Elton Francisco – Cruz Alta-RS – Set-26-2020 – 5:38 PM

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