De repente, o silêncio
De repente, o silêncio. Parei um momento de me debater e tudo se acalmou. As águas turvas ficaram sem movimento e a escuridão pareceu-me mais aconchegante... era o fundo, o mais profundo que se poderia chegar. Todos meus pensamentos sumiram e as palavras morriam em mim. De repente, o silêncio. Um calar que vinha do âmago de mim, que sublime me mostrava um outro eu há muito adormecido, um outro eu que há muito buscava espaço onde sequer poderia existir.
De repente, o silêncio. As águas, antes geladas, tornam-se
tépidas e posso sentir minha nudez. As máscaras caíram. Lembranças remotas de
uma vida que não tive, mas que imaginei nos anos que se foram... de repente, o
silêncio. Aquela sensação de que algo morreu definitivamente por nunca ter tido
vida. De uma vida que nunca foi vida. De uma vida que não se realizou... anos
que se foram, em silêncio. Sem vida qualquer.
A noite avança e perco a noção do tempo. Mergulhado nas
águas, vejo uma criatura que se move em passos lentos e avança em direção à
superfície. Há uma superfície. Uma luz tênue e distante que se parece refletir.
Um reflexo. Há esperança. Se conseguir forças, eu sairei dos pântanos. Começo a
avançar e sigo a pequena criatura. E o silêncio continua, profundo e denso,
como se fizesse agora parte de mim. Logo sinto o ar fora das águas. Respiro.
Tenho algo vivo em mim.
Há uma subida, estou no fundo de um abismo. Escalo,
acompanhando a criatura, até fora do fosso. Ouço barulho de cães, ou lobos, ou
feras. Continuo subindo... e o silêncio agora se vai. O barulho se torna maior
e avisto um caminho entre as rochas... uma fenda por onde posso sair. Sigo em
frente com forças que desconhecia. O vento continua. A luz que refletia se
torna um farol para que eu prossiga. Avanço. As lembranças retornam e vejo o filme de minha ilusão. Vejo rostos e as palavras que nunca foram ditas. As
vidas que não foram vividas... então sou eu quem silencio, agora.
No topo do abismo, a criatura passa entre as feras, que se
calam em respeito. Paro. Prostro-me diante de tudo que tenho em mente. Serpentes,
pássaros e insetos que se apresentam. Cada um com o rosto do passado e da
ilusão. Meu corpo arqueia e os olhos choram... como se tudo se limpasse. Estou
a despertar.
Coloco-me de pé e sigo a estrada. As bestas feras abrem o caminho
e o som me pareceu amistoso. À frente, vejo nascer o dia... vejo nascer o dia.
De repente, não mais o silêncio, mas uma luz que me enche os olhos.
=======
Elton Francisco, Jan-03-2021, Votuporanga-SP

Comentários