O tempo é estranho
Ainda era cedo, dizia ao olhar o relógio. O tempo é
estranho, pensou. Tempo parecia uma questão de perspectiva, de olhar, de se
importar. Esperava. Há horas, talvez. Dias ou mais que isso. Mas, ainda era cedo...
era preciso mais que os dias, semanas, meses. Era preciso de tempo, do tempo
estranho, pensou. Para que florescesse e as frutas viessem. Para maturar. Para
crescer.
Leu o bilhete novamente. Como havia lido por dezenas de
vezes, centenas, talvez. Era uma despedida. Seca. Sem emoção. Sem as promessas
que tantas vezes se fizeram mutuamente. Um adeus lacônico e distante... o tempo
é estranho, pensou. Corrompeu o sentimento que havia, se é que havia. Mas ainda
era cedo, poderia esperar. Era preciso mais tempo do tempo, em dias, semanas ou
meses.
Levantou-se, deixou o bilhete e pegou do café que havia
feito pela manhã. Logo seria tempo de seu almoço, mas precisava do café. Seu
gato moveu-se preguiçosamente pela sala e um vento balançou a planta sobre o
móvel. Esperava. Que seu telefone deixasse de estar mudo, que as flores viessem
e os frutos. Esperava que se maturasse, para crescer. Suspirou e, silente,
tomou do café em apenas um gole. Tomou de si mesmo, do bilhete, da despedida.
O outro não estava pronto, enfim decidiu. O bilhete. As
palavras de medo e fuga. Não estava pronto... o silêncio de como partiu e a não
despedida. Não estava pronto, enfim decidiu. O tempo poderia ajudá-lo. O tempo,
estranho, poderia ajudá-lo a se encontrar. E com essa sensação, despertou. De
repente, o dia pareceu mais claro e teve fome. Quis cozinhar. Faria nhoque com
molho branco. Faria comida de verdade e ouviria uma música diferente. E
cantaria, a mesma melodia, para que o dia fosse leve.
Seu gato miou e deu-lhe de comer. Colocou água na planta e
assoviou displicentemente ao derrubar um pouco no assoalho. Sorriu. Sentiu-se
vivo. Viu o bilhete no sofá e o rasgou. Abriu as cortinas e cantarolou, feliz,
por se ter despertado. O tempo, estranho, havia, enfim, chegado. Não é cedo, agora.
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