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Ana

Penteava seus cabelos preguiçosamente a se mirar no espelho. Tinha um viço profundo, distante do tempo em que ainda não se sabia viva, não se sabia capaz dessa liberdade a se exaurir dos poros quase que involuntariamente. Olhos grandes e expressivos, lembra-se. Lábios carnudos, firmes e de um vermelho incomum. Amou-se enquanto se penteava. Amou-se tão profunda e lentamente que por um segundo sentiu-se transportar ao tempo recordado. Viu-se. Viu-se tão nítida que se emocionou. Viu-se tão viva que se quis e se quis tanto e tanto que se pôs a chorar. Ana, chamou-se a si mesma. Ana de Ana da igreja que foi mãe de sua mãe. Considerou-se filha da virgem. Da virgem que tanto lhe acompanhou nas noites em que chorou sorrateira escondida de todos. Que se escondeu de todos que apontavam seu pecado. Que apontavam Ana por ser João. Voltou. Um instante mudo lhe mareou os olhos. Corrigiu sua maquiagem e sorriu leve. Quis-se novamente. Não se deixaria abater pelos que condenavam seu amor. Desc...

Sublimação

Se fossem todos humanos não teriam do que se arrependerem.   Se fossem humanos, meu Deus, eu os justificaria, ou até os absolveria pela piedade que ainda há em minha alma.   Mas são simples e ignorantes, desconhecem o deleite do pecado e se perdem apenas na culpa dos atos insanos que cometem.   São tolos e perdidos. Tolos, culpados de atos deflatores que cometem sem pensar. Culpados pela ignorância do sublime, da humanidade, da imperfeição.   E apenas se permitem a busca do efêmero em telas e idéias escritas, em fantasias que criam e depois decrescem com os príncipes do ócio.   Se fossem todos humanos... mas não o são.   E agora, meu Deus, que me aproximo deles, se ofuscam em minha rede para não aceitarem o fato de minha sublimação.   E.

Leia até o final, reflita

A marca de cada um   Do leitor Ricardo Mainieri: "Como se manter fiel às suas idéias e preferências num mundo cada vez mais estereotipado?" por Eugenio Mussak Estereotipia é uma técnica usada em gráficas para produzir cópias que são, então, chamadas de estereótipos. A palavra grega stereos passa a idéia de alguma coisa dura que é capaz de deixar sua marca em uma superfície mole, como o tipo da gráfica sobre o papel. Essa técnica permitiu que se fizessem muitas cópias, não só de textos mas também de obras de arte. Hoje, qualquer pessoa pode ter em casa uma cópia da Monalisa ou de Guernica, por exemplo. O curioso é que, mesmo tendo visto muitas dessas cópias, quando você depara com o original, a emoção é outra. Por que isso ocorre? Ora, porque a cópia não tem a personalidade que desejamos para nos emocionar. O autor não tocou nela, não deixou ali impressa sua alma junto com a tinta. Cópias são estéreis, não têm DNA, são produto, não são causa, são decoração, não arte...

Para pensar...

Homens agindo como mulheres. Homens querendo estar com outros, tocando-se uns aos outros. Estes pervertidos roçando-se uns nos outros. Tocando-se uns aos outros. Mãos másculas... tocando os cachos de cabelos balançantes. Um cigarro ocasional após o barbear. As graves vozes de barítonos... suspirando, sussurrando... Eles se abraçam com fortes braços masculinos, abraçam outros. Apertados.

A feia

Há tempos não se via no espelho. Não se sabia gorda ou magra, alta ou baixa. Por não se enxergar, esquecia-se de si mesma e do mundo: e essa era a grande paz de seu espírito! Sentia-se suficiente em si, não se relacionava com os outros e, por isso, experimentava a solidão singularmente. Era calada. Se lhe falavam, respondia através de monossílabos; se não, permanecia por dias trancada em seu mutismo, com nada a se envolver ao seu redor. Essa era a sua paz que a invadia e a desnudava por se acreditar cega. Fizeram-na acreditar, por insistência, que recobraria a consciência de si mesma ao enxergar. Com a luz a lhe invadir novamente a retina, poderia mudar o seu destino. Aceitou para que lhe permitissem o seu silêncio, enquanto esperava. Quase muda, tomou óculos de avançado grau para que enxergasse como uma garota de sua idade. Não compreendia a necessidade de ser apenas mais uma garota, mas assim se deixou conduzir. E foi então que se descobriu feia. Reconheceu-se magricela, branca como ...

Delivery

Sabia que em alguns minutos seria o fim. Aquele incômodo seria finito e se sentiria leve e em maior paz. Fechou os olhos e as lágrimas caíram livremente. Um pequeno soluço e a certeza de que tudo estaria bem. Resignado deixou-se conduzir. Nu sobre a mesa fria o pulsar tomava fôlego e outras mãos seguravam as suas. Outras mãos tiravam-lhe o sono, as veias, o soro e algo para que não sentisse tanta dor. Estava sóbrio. Sóbrio e lúcido como antes. Sóbrio e cheio de uma esperança viva de que em alguns minutos seria o fim. Talvez não mentisse mais. Não diria a si mesmo que nunca aconteceu. Não diria de problemas desnudos, criados em sua imaginação quando negava sua intenção. Quando dizia que era farsa a realidade que sempre teve, o sentimento que sempre teve e a vontade que sempre negou. Lembrou-se da primeira vez. Lembrou-se de quando se concebeu. Do coito e sua entrega plena àquele que o tirou das trevas do medo. Das trevas da dúvida do que era e sempre foi. Suas comparações esdrúxulas che...

Fluir

Ela fechou os olhos lentamente e deixou-se sangrar. Cerrou-se internamente para que o sangue fluísse de si. Cada gota a se esvaír de seu interior como uma lembrança que ia e vinha. Como uma vida que suspirava e transpirava em si. Ela suavemente se permitia, se conduzia enquanto o sangue vertia de si. Sentia o cheiro de Anne. O doce sabor da juventude de Anne ainda corria em suas veias. Anne, que em delírios tomava seu amor para que se sentisse viva e feliz. Era Anne que saía de suas entranhas enquanto sonhava ali, perdida em um passado que não sabia esquecer. Anne e Su. Su e Anne. Como se tolerou enganar-se tanto tempo. Como pudera amar tão profundamente aquela que profanava sua mãe. Su. Lágrimas correram livre por seu rosto. Lágrimas que cortavam e dividiam sua angústia. Onde estava? Onde se poderia perder senão em si mesma? Fugitiva. Distante por não aceitar quem era. E era como Anne. Jovem como Anne. Tão livre e jovem que ali sentia a vida pela primeira vez. Olhou novamente seu vent...