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Tornar-se

Há tempos eu o notava pelo campus, sempre com seu jeans surrado e sua camiseta branca, comum, que lhe marcava o tórax. Tinha os olhos escuros, cabelos curtos e a barba sempre por fazer. Um jeito moleque, de riso fácil que cativava qualquer que se aproximasse sem intenção. Ele nunca tinha intenção. Talvez lhe faltasse a malícia dos que experimentam e conhecem a maldade do mundo, dos que conhecem o mundo. E foi na sexta, antes do feriado de todos os santos, enquanto eu caminhava absorta e perdida nos cálculos mentais de minha vida acadêmica, que eu o topei de supetão e fui lançada ao chão. Ele também quase caiu e eu, vermelha, não me cabia de vergonha. Não conseguia levantar o rosto e ouvia um dos cães a ladrar quase uníssono com o riso dele, que se divertia a mirar-me. Tateei o chão, cega, em busca de meus óculos. Ele se inclinou e ajudava-me a levantar, repetindo sua falta de intenção. O cão, em algum lugar, continuava a ladrar e em mim um calor descia. Quanto não quis sua aprox...

A Caixa

E deu-se durante seu aniversário de sete anos, ao abrir o presente que ganhara de sua madrinha Júlia. Ela, eufórica, perscrutava os adultos com tamanha volúpia que todos seus sentidos se assemelhavam a bocas que os devoravam com a altivez das crianças inteligentes. Ela, Ananda, buscava nos adultos alguma nesga de sentido que a arrebatasse de seu mundo onde, livre, poderia simplesmente ser. Eles, os adultos, não lhe notavam qualquer traço de anormalidade e acreditavam que eram o suficiente os antigripais durante o inverno. Diria, quem os visse, tratar-se de algo comum, mas era um ritmo distinto em que giravam as rodas de existência. A caixa do presente era grande e púrpura, com laços dourados e fazia um barulho estranho ao balançar. Ananda ainda tentou imaginar que surpresa lhe traria aquela caixa, mas em sua infância faltavam-lhe dores para se comparar aos adultos e suas ansiedades. Sorriu e agradeceu à madrinha com um gesto quase doce, quase suave, simplesmente seu. Abraçou-se com...

Galinhas de Angola

Talvez as galinhas estivessem apenas com frio, isoladas na periferia e esquecidas pelos transeuntes que   não as reconheciam como parte do local. Eram apenas galinhas, diriam. Poderiam servir de alimento ou então de entretenimento aos que tivessem tempo para compreendê-las. Tive pena delas, com frio. Compadeci da situação e das pessoas que não as viam, que talvez pela constante vida que passaram na periferia não poderiam reconhecer nenhuma imagem distante da vida que tinham. Não me achava como elas. Eu, parte da periferia e de seus cheiros, não era uma delas. Tinha uma outra imagem que fluia de mim e me fazia à parte, nesse mundo tão meu. Aproximei-me das galinhas e tentei me comunicar, em silêncio, como se a ausência de palavras fosse o código que utilizávamos ao falar. Ajoelhei-me e as olhei com complacência. Elas, relutantes, soltavam um pio ou outro quando viravam a cabeça, desconfiadas, para que pudessem me ver de ambos os lados. Seus olhos brilhavam de frio e suas penas, er...

e Carmem...

Era tarde quando me sentei na poltrona, recostei-me e pensei em distrair-me durante o trajeto de volta. Levaria um tempo ou dois até que chegasse e, após a toalete noturna, estivesse novamente a repousar em meu leito. Mais um tempo e seria um novo dia, quando sol me saudaria como convite ao trabalho e tudo se iniciaria, como sempre.   Em meio ao burburinho, vejo quando ele se aproxima e se senta na poltrona ao lado. A sua frente, o outro se equilibrava com as bolsas de fraldas, mamadeiras e outros tantos apetrechos do pequeno. Era Carlos. Ele e Carlos que distraidamente riam a minha frente do dia que tiveram. O filho, no colo dele, dava sinais de que já dormia há um outro tempo. O chacoalhar do trem embalava seu sono, quase o meu sono, quase o nosso sono. O corpo relaxava e movia-se levemente a cada parada nas estações seguintes. Carlos sorria, mesmo em pé, embevecido pela conversa que mantinha com o outro.   Eram felizes e completos no que diziam, sobre o que diziam e como dizia...

Faz bem amar

Faz bem amar, um bem tão intenso e bom que me renova o espírito. Faz bem amar quem quer que seja, amar com intensidade, carinho, coragem. Faz bem amar o amigo e rir do jeito engraçado com que ele brinca sozinho, com que ele fala sozinho, com que ele come um sanduíche de pasta de amendoim sem amendoim... rs Faz bem amar aquela doce garota que nos atende no balcão da padaria e sempre tem um sorriso pela manhã, ainda que o dia tenha começado antes pelo horário de verão e todos estão ainda a dormir em suas casas. Faz bem amar quem senta ao nosso lado no metrô ou no trem, ainda que esteja distante do ideal de companhia silenciosa que gostaramos de ter ao nosso lado. Faz bem amar... É bom ter saudade e aprender a continuar mesmo distante. É bom sentir alegria ao receber um telefonema, ainda que em plena manhã de domingo quando dormir seria melhor que acordar... É bom amar, é bom conseguir olhar o que temos de bom mesmo quando tudo parece perdido. É bom escolher ver a beleza ainda que a tra...

Respiração

Não tenho problemas com o centro da cidade. Na verdade, acho que poucas vezes tive algum problema com a cidade em si, com as coisas que a cidade oferece ou seus cheiros e particularidades. Mas hoje foi diferente. Acho que hoje, estou diferente. Andar pela praça do correio é um desafio que exige requinte. Passar por entre inúmeras barracas a tocar o som dos salões de bairro é repugnante. Olhar nos olhos vazios das pessoas que comem seus sanduíches de cinqüenta centavos, enquanto outras se oferecem por sexo a troca de passe de metrô é a prova de que se está vivo! Entrei em um bar qualquer e pedi o que comer. Logo atrás de mim, vestido como os outros seres da praça, entra um garoto que também pede por comida. Ele se coça com freqüência e desconfio de que tenha se utilizado de algum serviço de meretrício. Veste uma blusa azul suja e uma calça rota feita de jeans. Suas mãos são limpas e a pele é clara. Unhas bem cortadas e cabelos aparados ao ombro. Olhos fundos, também perdidos, de...

De agora

Enquanto meu sorriso voa pelas sombras, sua imagem paira sobre a cama e me espera. Um silêncio surdo, de cheiro acre, faz com que o tempo entre nós se torne denso e tranquilo.   Seus pés são marcados e mancham meu lençol. Ele se despe suavemente e diz que nunca me amaria novamente, mas se entrega apenas para que eu me machuque uma vez mais. Seus lábios contém o veneno de minha ventura e fico a imaginar mil maneiras de torturá-lo em que sinto.   O vento se quebra à janela e uma voz doce sai de meu pesar. Peço-lhe que me encare. Ele confessa sua ventura errante e faz com que suas lágrimas lhe salguem a face. Levanta-se, nu, e vem ao meu encontro. Afasto-me. Paro diante do batente da porta e lembro da nossa música de outono. Do dia em que na chuva escrevemos nossos nomes na árvore... Não quero ser romântico, mas ainda assim dou dois passos em direção ao seu encontro e sorrio novamente.   Ele volta, senta-se na cama e nada diz. Abaixa seus olhos. Percebe meu transtorno. Faz m...