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tempo e eu: aniversário

a vida e o tempo :: viviane mosé *** eu acho que a vida anda passando a mão em mim eu acho que a vida anda passando a mão em mim eu acho que a vida anda passando eu acho que a vida anda a vida anda em mim a vida anda eu acho que há vida em mim há vida em mim acho que a vida anda passando a vida anda passando a mão em mim e por falar em sexo quem anda me comendo é o tempo se bem que já faz tempo, mas eu escondia porque ele me pegava a força e por trás até que um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo, se você tem que me comer que seja com meu consentimento, e me olhando nos olhos… eu acho que eu ganhei o tempo de lá pra cá ele tem sido bom comigo dizem que ando até remoçando. Poema do livro:  Pensamento do Chão , poemas em prosa e verso.

Amor sem afeto

Claire, hoje uma alegria imensa invadiu meu ser. Acordei em paz, bem, animado por viver. Ontem, enquanto comia pizza com alguns colegas da faculdade, descobri algo.  Olhei-os como se os visse pela vez primeira. Observei como falavam, como expressavam suas idéias e se deleitavam com o futebol na TV. Mastigavam com rapidez e, mesmo com a boca cheia de alimentos, cuspiam suas teorias sobre a vida. Claire, foi uma clareza imensa que me veio a mente: eu não gosto deles. Eu não me pareço com eles. Eu não sou amigo deles.  Comecei a rir com essa descoberta, pois junto a ela me veio outra coisa: eu não tenho de gostar deles. Que liberdade! Que libertação do espírito! Que paz! Claire, não sou obrigado a gostar deles e não preciso me culpar por isso. Eu simplesmente não preciso gostar porque convivem comigo, porque comem da mesma comida ou dormem na mesma cama. Não, eu não preciso, eu não tenho, eu não vou! De repente é uma clareza plena. Eu não sou obrigado a ter afeto e não prec...

E então...

Resolvi descer as escadas e ganhar a rua. Rever pessoas, andar pelos becos e sentir o cheiro doce da civilização. Encontrei-me com aquele branco que canta músicas sob minha janela, vestido de roxo e inconformado com a derrota do corinthians. Nada pude fazer senão me aproximar e sorrir com o que vi. E nada vi, certamente. Estou sonolento pelo tempo que passei cercado em minha toca. Não me acostumo novamente com essa vida que insiste existir fora de meu apartamento. Não reconheço isso. Paro em um boteco qualquer, sento-me e peço uma cerveja acompanhada de uma porção de amendoins. Sorrio por ver que ao meu lado cantam um pagode qualquer e ali perto avisto um do meu time de futebol. Ele se aproxima e pergunta porque tenho faltado tanto, ele se aproxima e puxa uma cadeira. Depois mais um e logo estou rodeado por todos, com porções de calabresas e outras cervejas abertas. Contamos piadas, acompanhamos o ritmo do pagode e saboreamos as pequenas que se aproximam a dançar. Sinto-me vivo, e estr...

Amar, verbo intransitivo

  Claire,   Reli o poema de Drummond enquanto tomava conhaque, ontem, com meu cão. Há dias que paramos, cansados, e ficamos sentados com nossos cachimbos em silêncio, a meditar em tudo o quanto fizemos ultimamente. Discutimos horas, meu cão e eu, a pensar no quanto amar nos torna o que somos, ainda que pela nossa natureza, nos limitamos a conceituar o amor e passamos a vida sem amar.      Por que circundamos o amor no outro quando podemos deixá-lo fluir de nós? Por que, Claire, nos afastamos de Deus e nos culpamos por cada ato que fazemos? Por que nos limitamos tanto e não nos permitimos experimentar?   Nenhum de nós tivemos respostas, Claire. Meu cão silenciava-se por não saber o que dizer quando questiono a culpa. O que é a culpa senão o limite que nos impomos? O que é a culpa senão o que aceitamos para pertencer a um grupo? O que é a culpa, Claire, senão a negação de amar?   Como amar, minha irmã, se não conseguimos aceitar o que somos - e quem somos - senão por um...

Redescobrir a amar

Queria que estivesse aqui, minha irmã. É estranha essa distância entre a gente quando há tanto que gostaria de compartilhar. Quando há descobertas que gostaria de dizer e discutir horas com você para que me dissesse o quanto estou louco. Estou louco, Claire. Louco. Há tempos tenho notado minha fragilidade, uma sensação estranha que não faz sentido, que não tem sentido, que não tem motivo. O que antes era, já não mais é. Não vejo graça no que antes me retinha tanto prazer, é como se Paulo, o apóstolo, estivesse certo ao dizer que deixamos as coisas de menino quando não mais somos meninos. Tenho um novo desejo, Claire. Um desejo vivo que pulsa em mim e toma forma: gesta em meu ventre e sobre às minhas entranhas como algo que ali sempre esteve  nunca o conheci. É algo que faz meu dia ser mais claro e minha vida mais repleta de energia... ah, Claire... quanto tempo perdido entre falos e peles que hoje não mais estão, não mais são, não mais têm importância... Estou a redescobrir a am...

Tornar-se

Há tempos eu o notava pelo campus, sempre com seu jeans surrado e sua camiseta branca, comum, que lhe marcava o tórax. Tinha os olhos escuros, cabelos curtos e a barba sempre por fazer. Um jeito moleque, de riso fácil que cativava qualquer que se aproximasse sem intenção. Ele nunca tinha intenção. Talvez lhe faltasse a malícia dos que experimentam e conhecem a maldade do mundo, dos que conhecem o mundo. E foi na sexta, antes do feriado de todos os santos, enquanto eu caminhava absorta e perdida nos cálculos mentais de minha vida acadêmica, que eu o topei de supetão e fui lançada ao chão. Ele também quase caiu e eu, vermelha, não me cabia de vergonha. Não conseguia levantar o rosto e ouvia um dos cães a ladrar quase uníssono com o riso dele, que se divertia a mirar-me. Tateei o chão, cega, em busca de meus óculos. Ele se inclinou e ajudava-me a levantar, repetindo sua falta de intenção. O cão, em algum lugar, continuava a ladrar e em mim um calor descia. Quanto não quis sua aprox...

A Caixa

E deu-se durante seu aniversário de sete anos, ao abrir o presente que ganhara de sua madrinha Júlia. Ela, eufórica, perscrutava os adultos com tamanha volúpia que todos seus sentidos se assemelhavam a bocas que os devoravam com a altivez das crianças inteligentes. Ela, Ananda, buscava nos adultos alguma nesga de sentido que a arrebatasse de seu mundo onde, livre, poderia simplesmente ser. Eles, os adultos, não lhe notavam qualquer traço de anormalidade e acreditavam que eram o suficiente os antigripais durante o inverno. Diria, quem os visse, tratar-se de algo comum, mas era um ritmo distinto em que giravam as rodas de existência. A caixa do presente era grande e púrpura, com laços dourados e fazia um barulho estranho ao balançar. Ananda ainda tentou imaginar que surpresa lhe traria aquela caixa, mas em sua infância faltavam-lhe dores para se comparar aos adultos e suas ansiedades. Sorriu e agradeceu à madrinha com um gesto quase doce, quase suave, simplesmente seu. Abraçou-se com...