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Adormecido

Naquele dia, resolveu não dormir. Tinha medo de seus sonhos, das noites em que visitava lugares que nunca havia conhecido. Naquele dia, fez um café preto, pegou seu cigarro e pensou em nada, pois nada havia para se pensar. O silêncio se instalou e misturou-se à fumaça de seu cigarro. Calado. Café frio e a rua deserta abaixo de sua janela. E o medo dos sonhos, da noite e do desconhecido que vinha visitá-lo. Lembrou-se da última conversa com sua pequena: ela o abandonou por conta do tédio. Dizia que ele nada seria, pois o tempo passava sem que algo fosse possível de ser feito para mudar. Sentiu-se abandonado pela pequena. Sentiu-se solitário, vazio, silente. Sentia falta de açúcar em seu café e de um cigarro de marca melhor. Sentia falta de gente, mas era em si mesmo que existia ninguém, nem ele mesmo. O assobio do guarda noturno pareceu despertar-lhe do transe. Demorou reconhecer onde estava, sua janela e sua rua. De repente, viu seu gato subindo em qualquer lugar para saltar e queb...

Dois de Copas

Amou-se através do olhar do outro. Viu-se através do olhar do outro. E então, amou o outro. Enquanto o outro, todavia, não sabia, ainda, se amar. Acordou, finalmente. Sentia-se vivo e, pelo o afeto que nasceu, também novamente nasceu. Tinha novos sonhos e seus objetivos eram plenos. E puros. E intensos. Por agora, na descoberta e na verdade, o tempo rege o tempo... e o destino, ah, esse tal destino, deixa de ser porque a consciência acontece. E tudo segue... Laura P.

Semana na Kabana – de 12 a 18-Julho-2020

“Aquele que é inspirado reza a D’us em segredo e alimenta o pobre sem comunicá-lo a ninguém. Assim, D’us o atrai para si e o libera da morte” – Livro XXXIII – 10 Começamos a semana com a Lua Minguante , posicionada no signo de Áries , enquanto o Sol continua em Câncer . Portanto, seguimos com a companhia de Fogo e Água , dizendo de forma simplificada, a convidar-nos ao acolhimento e recolhimento das energias. A carta da semana é o Ás de Paus , representada no Tarot Mitológico como Zeus, em sua forma mais humana, pronto para o início da jornada heróica – esse naipe vai contar a história de Jasão e os Argonautas, na busca do Velocino de Ouro. Na Kabana temos a regência de Oxalá , nessa semana, e percebo que é momento de introspecção, com o reconhecimento da nossa energia realização que ainda não está direcionada – ou devidamente pronta para ser utilizada em plenitude. É como se todo conhecimento que temos estivesse “em potencial”, se preparando para ser colocado em movimento ...

Colóquios de Espiritualidade

Eu me lembro que, aos seis anos de idade, eu comecei a ler com revistas em quadrinhos que traziam estórias de Maga Patalójika e Madame Min . Eram bruxas de um universo diferente do meu, mas que fascinavam meu mundo infantil, ainda inocente, buscando respostas para minhas ideias de poções e sortilégios capazes de mudar a realidade. A infância era um tempo de alegria, onde anos depois eu trocava os nomes dos presentes de natal para tomar de meu irmão o brinquedo de mágico para eu mesmo me fazer de mágico com os truques que tinha... tinha uma imaginação fértil, diziam, mas a necessidade cultural da religião me levaria aos ensinamentos católicos sem que eu compreendesse de onde vinham todas as inspirações que eu tinha! Quando completei 17 anos, tornei-me evangélico, na busca por respostas para tantas vozes e previsões que estavam em mim: era profeta, diziam. Batizado nas águas e no fogo, pelo Espírito de D’us, tornei-me capaz de falar das escrituras e de cantar de forma inspirada...

Ser por inteiro

Eu acredito que a gente se define pelas amizades que a gente tem, pelas palavras que a gente expressa, pelas coisas que a gente faz. Não acho que seja possível alguém fazer algo estúpido se estupidez não for algo que ele possui em si mesmo. É como se fosse possível externar somente o que temos por dentro, sem exceção. Se faço algo com bastante atenção e procuro sempre fazer o melhor, é porque tenho isso como valor em mim mesmo. Como se qualquer coisa que eu fosse fazer, ainda que fosse um simples pão com manteiga, eu fizesse com excelência, desse o meu melhor... porque a excelência é um valor para mim. Seguindo esse raciocínio, eu acredito que tudo que acontece com a gente tem relação direta com os valores que a gente tem. Explico: você não irá receber nada diferente do que você é. Se você semeia excelência por onde passa, por que irá receber menos que excelência de volta? Se vamos procurar sempre fazer nosso melhor, porque não será o melhor que vamos receber, ainda que seja na ...

O Louco de Botas

Chegou de mansinho, pousado no dorso de uma pomba. Abriu sua bolsa e tirou uma toalha branca, uma boneca azul e um carrinho lilás. Pousou tudo sobre a grama cinza e riu do que tinha feito. Alegrou-se intimamente e foi buscar água na fonte. A fonte que ele sabia uma réplica daquela vista na Itália... uma vez mais seu sorriso íntimo demonstrou uma alegria que lhe ia ao interior. Conhecia Roma e, muitas vezes, foi à luz de candelabro que se deitou nas gramas de Amsterdã ao observar o pôr do sol. Conhecia o Velho Mundo e a América tão celebrada. Revia em sua memória o primeiro cair de neve ainda com o brilho do fio do outono. Um fio único, como brincadeiras boreais da natureza para lhe encher os sentidos. E ele poderia se curvar para misturar-se à natureza... ela poderia engolir sua preguiça que estava firmemente fixada! Voltou para seu canto e deu de beber para boneca. Dispensou a pomba, não voaria mais por aquela tarde. Tirou suas botas, espreguiçou-se lentamente e chamou pelo seu cão....

A História de M.

Há muito tempo, quando ainda existiam os bárbaros na região nórdica, uma família insistia em sobreviver na discrição das matas. Em um sítio distante do povoado, subsistiam com sua pequena plantação e criação de animais.   O pai e suas filhas ordenhavam as ovelhas, aravam a terra e teciam para afugentar o frio da Noruega. A mãe, por sua vez, mantinha uma conserva de alimentos e uma estufa de flores, de onde conseguia alguma renda de escambos com pequenos mercadores que passavam vez ou outra pela região.   Mas a invasão e as lutas ainda ocorriam e todos temiam que, mesmo naquela região longínqua, os bárbaros viessem a tomar-lhe o pequeno espaço.   Muitas vezes, nas noites em que o frio não os maltratava tanto, reuniam-se diante da pequena lareira para falar sobre a Magia e a origem de seu povo. E ali, muitas fantasias passam pela mente de M., a mais jovem das filhas, que vivenciava as palavras como se as tivesse vivido todas elas. Das lendas dos magos e...