Vaga Lume - Parte I

Lucius estava a vagar pela noite e observava a compenetração entre o sagrado e o profano: pessoas que se drogavam em frenesi e prostitutas se ofereciam por dez reais. Sentiu-se amargo quando ouviu, ao longe, tiros e arruaças. Os prédios ostentavam a estupidez da sociedade falocêntrica, justapostos, formando uma selva impregnada pelas vibrações de tristeza e dor. Sabia que estava sozinho na busca pelo nada...

Ajustou-se mais dentro da jaqueta. Ao levantar a gola para proteger o pescoço, sentiu o frio bater em seu rosto congelando-o até as entranhas. O odor fétido das poças de lama o engasgava em seu desespero, sua imaginação formava grandes monstros que o perseguiam e bradavam ferozmente em seu íntimo. Sentiu desejo de beber algo qualquer que vomitaria no dia seguinte. Sentiu asco de si mesmo ao perceber o quanto ainda estaria alheio às suas próprias angústias, à sua fome de dias ou meses sem a mínima expectativa de sanativo. Continuou a caminhar na busca de um destino.

Lucius caminhava sem rumo, procurava um meio de descarregar o seu ódio e isentar-se da culpa de ser a peste: sua existência era sua sentença de morte. Tropeçou. Caiu de boca no chão rijo e quase quebrou o resto de seus dentes, sentiu o cheiro da urina dos ratos e o gosto de fezes dos mendigos perdidos. Levantou-se. Seus olhos na face negra ficaram maiores enquanto esbravejava algum palavrão que traria no eco de retorno a briga do casal no prédio à sua esquerda. Parou. Lembrou-se de algo semelhante. Partiu, não se importava.

Estacionou-se, de repente, diante de um bar e reconheceu o ambiente: as mesmas luzes coloridas, as mesmas caras e as mesmas músicas. Entrou. Cumprimentou laconicamente o porteiro e pôs-se logo a procurar por uma presa fácil, precisaria de dinheiro para a corrida até em casa. Pediu uma vodka ao perceber na mesa à sua frente uma branquela a fumar. Exibiu-se. A branquela retribuiu. Cumprimentaram-se estabelecendo o contato dos anjos camaradas: tornaram-se os próprios anjos. Dançaram ao mesmo tempo em que pequenas luzes os iluminavam na pista, pequenos vaga-lumes pelo salão para ostentarem a liberdade de demônios no inferno...

A noite tornava-se cada vez mais densa. Pequeninas luzes cederam lugar à penumbra; não mais jazz ou blues. Agora, somente espasmos contidos e gritos fingidos de um prazer banal. A solidão daria lugar à fantasia, ao efêmero e ao intenso; ao ócio de dias inteiros envolvidos em viagens inócuas ao inconsciente desconhecido; ao consciente nunca encontrado e à consciência perdida em uma infância incerta.

A cidade sobreviveria: sirenes de polícia, badernas, prostitutas de dez reais e crianças pelas ruas. Chovia. Lucius voltaria a caminhar pelas ruas, em busca do mesmo interesse angelical, na procura de maior luz que os vaga-lumes para tirar a tinta de sua angústia, na procura de si mesmo e de sua humanidade, pela noite, pelo nada...


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btw, hoje saiu o resultado da USP... passei!!!!!

Comentários

El hombre maíz disse…
" pequenos vaga-lumes pelo salão para ostentarem a liberdade de demônios no inferno..."

essas suas tiradas são bacanas
Anônimo disse…
Gostei bastante,
se essa é a parte I, não vejo a hora de ler a II...
Anônimo disse…
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