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O cachecol

Eu nunca havia conhecido uma ex-puta.   Não sabia ao certo se elas existiam, ou se eram apenas menções honrosas usadas em ofensas às mães. E conheci Cleuza. Conheci Cleuza sem saber quem era. Morava nas vizinhanças do bairro. Sempre a via recatada, calada. Tinha um ar quase triste, quase discreto. Era uma pessoa quase comum. Sempre quase. Morava com seu marido, Nélio, e seu pequeno cão, cujo nome me olvidei. Sempre me esqueço do nome das coisas. Das pessoas. Mas era Cleuza mesmo seu nome. Seu nome de casada, de puta. Ela tinha um olhar sereno e falava de suas bromélias, enquanto costurava. Ela fazia receitas de milho como ninguém, cuidava dos filhos das vizinhas e quase não saía de casa durante o dia. Cleuza era assim mesmo: boa vizinha, boa costureira e uma boa mão para pamonha. Um dia, em uma festa de família, passei a observar Cleuza. Foi então que percebi o quanto se continha no papel que vivia. Ela escondia seus olhares de soslaio aos solteiros e discretamente media os c...

Salomão Negão

"Seu nome era Salomão. Não como aquele do livro sagrado, que tinha como pressuposto uma sabedoria divina. Era Salomão na simplicidade. Na ignorância. Salomão negão. Era quase um trocadilho. Era quase uma realidade que se expressa em seus gestos toscos da periferia que habitava.   Eu o reconheci na piscina como alguém da região. Ele andava tranqüilamente pelo local, exibindo-se como uma pequena mercadoria que tinha entre as pernas mais que uma ferramenta de trabalho. Era negro. Tão alto quanto rebelde. Tão quente quando o calor da piscina e os gestos obscenos que fazia para atrair a freguesia.   Ele me olhou profundamente e sorriu como animal. Ele demonstrava um cio em que me reconhecia. Ele sabia de meus desejos e, fortunadamente, envolvia-me em uma crosta de lascívia que tanto me excitava. Salomão. Salomão negão. Alto e quente. Magro e feio como são os que habitam o longínquo leste da cidade.   O SESC estava inabitado quando finalmente me aproximei. Ele so...

A Dança do Fogo

Meus armários foram abertos. Joguei fora tudo o que não mais usaria. Joguei fora tudo o que me faria recordar a fraqueza e a dor. Perdi com isso, mas aprendi. Ontem estava solitário e contratei uma puta para massagear minhas costas. Ela me ofendeu, mas eu não me defendi. Senti-me irracional e sujo, como se isso fosse possível. Descobri que ela tinha apenas isso a oferecer: uma cantada barata e um pouco mais que mãos para massagear minhas costas. Ela não era sadia e tampouco merecia meu respeito. A bandida merecia a morte e assim será feito. A bandida merecia com que os céus a cegasse, mas não desejo essa benção ao seu espírito. Rezarei para que tenha um dia um encontro com a luz, assim saberá o mal que fez. Colhi de meu jardim o amargo de suas palavras, mas aprendi com elas. Hoje estou forte, aprendi a rir e coloquei uma fita no pescoço. Talvez isso simbolize a morte da puta. Talvez seja apenas uma fita que sobrou do incêndio de minha casa. Coloquei fogo na casa. Incendiei tudo o que n...

Garotos

A noite ainda tem seus doces mistérios, deixo meus pensamentos vagarem perdidamente enquanto observo atentamente os sabores que invadem a minha mente...   Seres vis e grotescos habitam as tumbas mais escuras nas ruas desertas, vejo os seus desejos emanarem e me perseguirem em silêncio, conheço as suas vidas, compartilho das insinuações e cultuo a malícia que sai de seus espíritos...   Ainda exibem uma postura falsa, mentem com jogos e fingem com garotas são apenas garotos levados, são apenas aqueles que curtem a solidão e o prazer básico da sodomia viril...   Sentem dores de parto, mostram uma beleza que me seduz, entregam-se por nada e depois partem com lágrimas nos olhos... Ainda desconhecem o amor, Ainda procuram por uma vida que nunca encontrarão... São meninos, Garotos levados que tem sua força expressa no sexo e seus sonhos levados pelo vento!   Sonham com meu corpo e o desejam no frenesi em segredo, Procuram-me em sonhos e torn...

Partida

O final é inevitável. Lentamente, assisto Elizabeth se esvair pelos meus dedos e sinto que em breve não verei mais luz em seus olhos. Docemente ela me diz algumas palavras e confessa em um ato sagrado suas transgressões mais sublimes. Sorri. Não vejo tristeza ou dor em seu rosto. Não sinto que há culpa ou qualquer outra emoção de repressão. Ela, envolta em sua liberdade, se vai com ares da rainha que sempre foi. Um júbilo invade meu peito e canto em silêncio. Talvez tenha me deixado contaminar por sua liberdade, por sua crença na urgência da vida. Não sei ao certo como definir essa sensação em meu peito. Elizabeth constantemente se soltava e se deixava conduzir ao sabor de seus desejos. Rompantes de uma alma jovial! Ela, e só ela, transpassava qualquer obstáculo para satisfazer o pedido de sua alma. Agora ela fecha os olhos e pende a cabeça ao lado. Como se adormecesse em mim para não ver a lágrima que me corta a face. Ela se foi, digo a mim mesmo. Elisabeth se foi. E. ...

Meu cão

  Está tarde e eu preciso soltar o meu cão. Meu cão misógino e uranista, meu cão. O cão que late na noite fria e escura. O cão que não enxerga e nem pertence ao beco escuro. Preciso soltar o meu cão que ladra, preciso soltar o meu cão. A noite está absorvendo o meu pensamento e fazendo-me sonhar, irracionalmente. Está tarde, já disse, preciso apagar todas as luzes e repousar o meu corpo. Vou perseguir um gato. O gato. Vou soltar o meu cão, e buscar a resposta que quero. Está tarde, agora, preciso soltar o meu cão.   Lucas D'Antonio, 09/julho/1997

Corre

Não posso impedir que os bandidos toquem em sua pele e tampouco posso apagar sua lágrima quando não verdadeira ao chorar. Não, eu não tenho esse direito. Todos dormem durante a noite em que procuro essa nova geração de ursos que invadem minhas ruas, todos dormem enquanto profano esses túmulos sagrados e arranco da morte o direito de escolha... todos dormem! E não posso impedir que você seja apenas mais um que dorme ou habita as ruas hibernando sua índole... Não posso impedir que escolha ser mártir e queime-se a si mesmo na fogueira que criou com mentiras e incestos. Não, eu não tenho esse direito. Não posso condenar sua mãe por amá-lo mais que a si mesma, não posso condenar seu pai por não enxergar a verdade através do vidro que existe em seu peito, não posso matar seu irmão que faz de seu corpo o depósito de seu prazer. Não, eu não tenho esse direito. Cai a noite e nem velas e candelabros afastam a escuridão das ruas, onde brincam meninos nus que carregam brasas em seus corpos, por ...