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A fuga do peixe

Há uma pequena abertura no aquário da sala, por onde fugiu meu peixe. Embora ele fosse eminentemente cinza, seu dourado se destacava entre os móveis e a porcelana branca do armário.  Ao perceber sua ausência, tive um pequeno aperto no peito. Ele partiu. Agora minha casa está vazia, a velha cadeira de balanço onde ficava por oras a admirá-lo parece sem sentido e necessidade. Falta o cinza do peixe, o seu dourado e a certeza de que toda manhã se renovaria. Não amanheceu essa noite. Não houve uma renovação de atmosfera e as flores que ontem estavam a enfeitar minhas roupas murcharam pela ausência da luz do peixe. É como se o aperto de meu peito parasse, quando ele estivesse em mim. É como se minha vida fosse poupada, tivesse uma razão de ser ao alimentá-lo todos os dias. Abro a geladeira e não sinto a fome me visitar. Tudo gira, não reconheço minha imagem e aos poucos me desconcerto em mim. Como aquela música. Como aquela diferença entre tudo o que era comum. Meu peixe fugiu. Parte de...

"...deixai com que os mortos enterrem seus mortos!"

  É uma manhã ensolarada com gosto de primavera. Sinto uma mescla entre frio e calor enquanto, caminhando, passo pela igreja de São Francisco.  Emociono-me. Paro diante da construção. Faço uma mesura e entro, tímido, nesse templo que há tempos está presente no alto da Penha.   Percorro com os olhos por toda a nave e vejo-me sozinho. Entro em um corredor e saúdo os bancos vazios que ali estão. Paro novamente e ajoelho-me. Abaixo os olhos e uma oração sincera sai de meus lábios. Meu peito enche-se de um calor suave e tenho nada a dizer senão agradecer, sinceramente, pela força que tive até aqui.   Mais alguns minutos e algumas lágrimas cortam-me o rosto. Emociono-me. O calor torna-se mais intenso e tenho certeza de que ali, naquela epifania, estou em paz. Calo-me e continuo minha oração. Agradeço pela alegria que me invade o peito, pelas mãos marcadas, pela saúde em meus pés descalços. Agradeço, sobretudo, por poder chorar e celebrar, em meu íntimo, a transformação por...

na casa de meu Pai há muitas moradas...

Há realmente muito o que compreender nesse Universo em que estamos inseridos. Dias em que fico a pensar e minha ação é nenhuma senão agradecer, e muito, a cada momento em que desfruto da existência. Fogem-me as palavras para celebrar, com propriedade, a benesse de viver!   E basta viver, amigo, com tanta intensidade e entrega que não haverá tempo para lutar contra os desíginios do Divino. Basta aceitá-los e entregar-se, por opção, e viver com Ele sem que haja o que nos atrasar. E esse Divino, que pode se manisfestar de acordo com a crença que professarmos, estará sempre a nos guiar para que cheguemos à plenitude do que somos... somos divinos, meu caro, e como divinos a responsabilidade de praticarmos a divindade a todo momento, testemunharmos a divindade de nossa transformação e vencer o que nos afasta daquilo que somos.   A caminhada é íngrime e nos leva a deparar com muito que nunca habitou a imaginação. Conheci os cães infernais que trabalham para lei e os rastejantes que, ...

Exultai e alegrai-vos...

Há dias que sinto lágrimas brotarem em meus olhos e emociono-me com mais frequência que antes.  É uma sensação completa e complexa, pois desenvolve-se, em mim, uma confiança intensa de que tudo está correto e tudo o que passamos só nos faz crescer. A lágrima diz que estou vivo e tenho emoções que me fazem humano. Abro os braços e as chagas de minhas mãos crucificam meu antigo eu resistente à evolução, preso aos pequenos prazeres e distante da realização do meu eu-Espírito.   E pensei sobre a dor, mas não posso exaltá-la a ou elevar apologias ao sofrimento: aceito-a, apenas, como um meio de desenvolvimento, de aproximação com o Divino, como oportunidade de crescer em espírito. Essa vontade intensa de participar do Divino, na magia que está ao de redor, é quem conduz a essa crucificação diária de quem não sou – e penso que sou. Esse ser –não ser que se perde no egoísmo e não entende que o “deixar viver” é permitir a cada um seu ritmo próprio de crescimento. ...

Se a dor o visita, é tempo de mudar!

Daniel, há dias que não paro para escrever e hoje meus pensamentos estão quietos e tumultuados ao mesmo tempo. Escrever, talvez, me faça sentir melhor. Acho diferente perceber que a dor e o incômodo servem para que mudemos, para que queiramos mudar e retornar a uma situação de maior conforto. É desconfortável perceber o erro: de julgamento, de expectativa, de desejo. Decepção é a melhor palavra para descrever meu interior nesse instante. Uma decepção comigo mesmo, de me permitir a um novo embuste. Errei, Daniel, ao esperar e acreditar em quem não é nada além do que sempre foi. Sinto-me estranho, mas acho que é o aprendizado ao perceber que ser humano é permitir-se ao erro. Ele, a quem julguei, parecia-me terno e inteligente. Alguém merecedor de confiança e amor. Sim, o meu sentimento mais nobre e sincero que não hesitei em entregar pelo juízo de minha intuição. Errei, Daniel, errei profundamente e minha intuição que parecia tão treinada me desperta à humildade. Desço de m...

O novembro mais doce

Acho que foi o novembro mais intenso que vivi, ao seu lado. Agora, enquanto ouço Tiziano Ferro, lembro-me de quando fazíamos amor e tudo parecia possível. Acho que tudo era possível. Ainda é tudo possível. Sei que por agora seus passos estão maculados e seu desejo dista do meu. Quantas vezes, entretanto, ao dormir recordo-me de seus beijos e seu carinho intenso. Quantas vezes, ao despertar, imagino seu toque doce a me embalar. E que saudade do pecado que vivemos e das mentiras que contávamos. Que saudade daquele tempo onde não tínhamos culpa e rir era o que nos mantinha juntos. Tiziano continua seu ritmo e agora grita “te amo” da mesma forma com que fazíamos um ao outro quando ouvíamos. Não tenho mais o vinho que nos embriagara e nem as taças que quebramos em enlouquência. Nem mais somos os mesmos, doce criança. Mas não haverá outro sentimento senão amor. Talvez será eterno o que sinto e nunca me esquecerei de você. Mas agora, sobretudo, respondo ao seu apelo e di...

talvez...

é tarde e preciso dormir. é tarde. preciso guardar meu canto e apenas adormecer. sonhar. talvez sonhar com você ou com quem quer que seja. talvez não. talvez o que sinto seja apenas ansiedade. talvez eu tema pelo desconhecido. talvez eu tema pela distância do amigo mais amado. talvez esse amigo mais amado aceite meu convite. talvez... vou apenas dormir, amigo, amado, irmão, amante. não amante de sexo, amante de ouvido. amigo de ouvido. amigo mais amado. esteja em paz. E.