A Rezadeira do Pelourinho
Olhei pela janela e o Pelourinho estava vazio, todos se recolheram para evitar a peste. Meu corvo veio suave e pousou sobre meu ombro esquerdo. Eu estava silente, quieto e compenetrado em mim mesmo na solidão de meu apartamento: sem maconha, sem uísque e sem a companhia de Alice, minha companheira, que foi arrebatada pela peste. Meu corvo gralhou algo e avistei , do outro lado da rua, uma janela quase aberta, meio escura, onde uma velha sorria por entre as frestas da cortina. Tinha um olhar profundo, da idade e da sabedoria do tempo... era a rezadeira do Pelourinho, deduzi. Aquela tanto procurada em tempos de crise, que benzia as crianças e aconselhava tantas outras que já estavam na fase adulta. Tinha a pele enrugada e cinza, um sorriso perfeito e todos seus dentes eram claros. Senti de ir até ela, pedir um alento nesse luto que me consumia sem Alice. Antes de bater em sua porta, ela a abriu, simplesmente, e disse que me esperava. Usava máscara, agora, e uma grande mesa tinha tan...