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A Dança da Virgem

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Chegou de madrugada, sem cerimônia, de um jeito simples e devagar. Sentou-se na beirada da cama, ficou em silêncio me observando, calada, olhando até que eu pudesse me dar conta de quem era. Aos poucos, chamou outras para se sentarem ao lado. Ela, a Velha, tinha um ar sereno de quem tem o tempo ao seu favor. Sem qualquer palavra, entendi que me pedia para apaziguar meu coração e aceitar o tempo. Aceitar o que chega e o que vai... aceitar o ciclo do tempo em que ainda estamos presos. Seu nome era Inanna, como a deusa. Pediu-me calma, sem qualquer palavra pronunciar. Depois ela me apresentou a Grande Mãe, que sorriu e deu o nome de Maria. Com um véu fino sobre o rosto, disse-me que preciso perdoar a mim e aos outros, pois fazemos o que podemos com o que temos, no tempo que temos. Abraçou-me e disse para eu lembrar do mar, de onde a vida veio e para onde a vida vai... emocionado, deixei-me embalar em seus braços, sentindo um amor profundo por tudo que crio como meu.  Ela se levantou e...

A Rezadeira do Pelourinho

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Olhei pela janela e o Pelourinho estava vazio, todos se recolheram para evitar a peste. Meu corvo veio suave e pousou sobre meu ombro esquerdo. Eu estava silente, quieto e compenetrado em mim mesmo na solidão de meu apartamento: sem maconha, sem uísque e sem a companhia de Alice, minha companheira, que foi arrebatada pela peste. Meu corvo gralhou algo e avistei , do outro lado da rua,  uma janela quase aberta, meio escura, onde uma velha sorria por entre as frestas da cortina. Tinha um olhar profundo, da idade e da sabedoria do tempo... era a rezadeira do Pelourinho, deduzi. Aquela tanto procurada em tempos de crise, que benzia as crianças e aconselhava tantas outras que já estavam na fase adulta. Tinha a pele enrugada e cinza, um sorriso perfeito e todos seus dentes eram claros. Senti de ir até ela, pedir um alento nesse luto que me consumia sem Alice. Antes de bater em sua porta, ela a abriu, simplesmente, e disse que me esperava. Usava máscara, agora, e uma grande mesa tinha tan...

A Magia dos Elementos

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Muitos me perguntam sobre o que é Magia ou como é a vida de um Mago (ou Magista?). Embora me pareça uma pergunta ingênua e carregada de preconceitos, eu consigo ter alguma paciência ao responder e perceber que não agradei a pessoa ao fazer.  Talvez, seja pela fantasia que cada um tem de que Magia é ter a vida fácil, sem qualquer problema e ser capaz de ter os desejos atendidos sempre que possível... uma fantasia interessante, eu diria, que pode ser atendida através da Magia, sem dúvida. Mas, daí reduzir Magia apenas a isso é superficial, senão imbecil. Podemos dizer que Magia é a capacidade de transformar a realidade ou se conectar com o Divino, tudo isso foi dito em algum livro em algum lugar por algum ocultista de referência. Outros vão dizer que a Magia é aquele envolvimento que ocorre e faz com que o Ser tenha uma Epifania e se descubra parte do Todo... gosto dessa visão também. E se Magia for tudo isso e nada disso ao mesmo tempo? Talvez seja essa minha visão que me afaste tan...

Naudiz

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Hoje Ela voltou. Veio devagar, logo pela manhã, e se instalou como uma visita inesperada. Não pediu licença, sentiu-se em casa, como sempre. Como se estivesse em seu espaço, em sua razão, em seu motivo. Chegou silente e sem alarde, sorrateira, própria de uma natureza madura e segura. Ela esperou por mim. Que eu me despertasse para um novo dia. E então, finalmente, Ela falou. E Suas palavras vieram como uma grande explosão, sem símbolos, sem rodeios, sem metades. Apenas vieram. E fizeram sentido. E tinham significado. Palavras capazes de mudar o sentir do dia, a consciência do dia. A consciência, Ela diria. A consciência é o que pode nos deixar livres. "Por que continuas preso em teus grilhões", Ela perguntou. "Por que não te libertas se do que precisas é coragem de prosseguir". Ela me questionava e meu café nunca pareceu tão amargo. O sono se foi e o pão sequer me alimentou. Então Ela se calou. Sentou-se em um canto em silêncio, novamente, como se aguardasse eu assi...

A angústia do saber

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Muitas vezes, não conhecemos o que nos prende, sequer sabemos qual é a nossa angústia. Ficamos atordoados com o café que caiu ao pegarmos ou com o carro dos ovos quando estamos ao celular falando com alguém... não sabemos que essas ocorrências externas são apenas referências que tocam algum elemento interno que temos. Desprezamos a angústia e deixamos a vida fluir. É como se vivêssemos na superfície boa parte do tempo, sem saber ao certo quem somos ou o que sentimos, verdadeiramente, diante das coisas em nossas vidas. É como se criássemos uma bolha e nem nos déssemos conta dela, como se o mundo que conhecemos fosse apenas um reflexo superficial do que temos em nosso interior: superficial porque acreditamos que não daríamos conta de descer mais fundo e conhecer mais fundo em nós mesmos. Mas, como somos imagem e semelhança Divina, a onisciência é uma das próprias condições do Ser Divino - ou D'us, para alguns. Somos empurrados pela vida para saber e conhecer, em uma curiosidade inata...

O numinoso em cada um de nós

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Umbanda sempre foi para mim algo como um conjunto de fascínio, receio, respeito e confusão.  Eu achava que, como religião, não me serviria. Como prática de espiritualidade, eu me confundia nessa mistura católica, afro e indígena: caboclos que trazem traços indígenas e se mesclam com as divindades africanas (orixás, negros e negras velhas), espíritos de ancestrais brasileitos (baianos, boiadeiros, malandros, marinheiros) e outros de origem diversas (ciganos, exus e pombo giras ).  Eu ousava dizer que, no limite, tudo isso não passava de um grande caos, misturando tudo e a todos dentro de algo sem regras e incerto... e, no fundo, não é que é isso mesmo? Não é que tudo se parece com um grande caos que traz de tudo um pouco e o pouco em tudo que acontece? Essa é uma das belezas que faz dessa prática espiritual, de grande religiosidade, uma das mais populares de nosso país. Uma prática que é capaz de nos dar elementos de grande significado, capaz de nos levar a busca interior de re...

Casa de Preto Velho

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Acordei com alguém me chamando, era uma voz firme, masculina, de idade, que dizia meu nome. Abri os olhos assustado, o cachorro estava de orelhas em pé, mas ninguém eu via no meu quarto além de mim... virei novamente para dormir, olhei no celular e ainda eram 5:32 AM. A voz repetiu meu nome uma vez mais, eu estava meio desperto e meio dormindo e resolvi não abrir meus olhos, apenas respondi com algum resmungo perguntando o que queria. Senti um sorriso na voz e acreditei que deveria ser algum amigo, com algum recado ou alguma nova lição. Sentei-me na cama, ainda com os olhos e janelas fechadas. O ventilador era o único som por um momento, antes que a voz me perguntasse: "E se pudesse, o que faria"? Hesitei por alguns segundos e, em pensamento, me questionei que tipo de pergunta era aquela...  De repente, senti como se uma multidão invadisse meu quarto, havia um turbilhão de presenças que se aglomeravam ao meu redor e, ao mesmo tempo, todo meu corpo se aquecia e se esfriava, co...