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Neon

Há um vento que entra pelos buracos de minha janela que faz com que eu pense no que vou escrever. É um vento quase frio, quase solitário, quase como uma brisa carente que viaja milhas e milhas para encontrar repouso em um lugar qualquer... Com ele vejo pequenas luzes coloridas ao longe, pessoas perdidas em seus pensamentos, pessoas que sonham com as promessas de um novo começo após as eleições e outras tantas que não entendem que os anos passam, simplesmente. O néon daquele anúncio do outro lado ilumina a parede de meu quarto: ele tem vida por um instante, quando projeta na tela fria de meu quarto a sombra de seres que habitam a noite metropolitana. A tela fosca pintada de branco, como os fantasmas que vagam, buscam abrigo, sonham e choram livremente! Ah, a metrópole. Um ano mais velha, quase uma senhora que abriga notívagos em seu seio... Estou bem. Estou tranqüilo, repito a mim mesmo. Como se eu pudesse criar um estado de consciência onde todo o medo que tenho pudesse fugir pelos bur...

Distante...

Há tempos não se via no espelho. Não se sabia gorda ou magra, alta ou baixa. Por não se enxergar, esquecia-se de si mesma e do mundo: e essa era a grande paz de seu espírito! Sentia-se suficiente em si, não se relacionava com os outros e, por isso, experimentava a solidão singularmente. Era calada. Se lhe falavam, respondia através de monossílabos; se não, permanecia por dias trancada em seu mutismo, com nada a se envolver em seu redor. Essa era a sua paz que a invadia e a desnudava por estar cega. Fizeram-na acreditar, por insistência, que recobraria a consciência de si mesma ao enxergar. Com a luz a lhe invadir novamente a retina, poderia mudar o seu destino. Aceitou para que lhe permitissem o seu silêncio, enquanto esperava. Quase muda, tomou óculos de avançado grau para que enxergasse como uma garota de sua idade. Não compreendia a necessidade de ser apenas mais uma garota, mas assim se deixou conduzir. E foi então que se descobriu feia. Reconheceu-se magricela, branca como cera e ...

O céu

Ainda continuo em paz. É uma paz sofrida, quase como uma intempérie que assola minha alma que se dista para sobrevoar paisagens idílicas. Tenho medo dessa paz, em mim. Um medo quase incômodo, quase vivo, quase presente... e é desse quase o meu maior medo! O medo é e, ao mesmo tempo, não é. Alimenta a si mesmo para que se torne um fim em si - e isso, indubitavelmente, me assusta. Acusam-me de descaso. Acusam-me de petulância por meu pedantismo: não entendem que estou em prece no silêncio, que me comunico com duendes e outras criações imaginárias que fogem de suas conceituações. Quase os incomodo, pois estou presente sem me fazer presente em uma frase qualquer. E a eles eu quase sou... Inquirem-me sobre leituras e blasfemam com citações de falsa erudição. Vomitam suas filosofias fálicas e, assim, conceituam meu comportamento como discriminação ao que me é estranho... no fundo, eu me sinto no limite entre a bondade e a hipocrisia: sou hipócrita, finalmente, ao sorrir em complacência. E é ...

O Menino e a Vela

O menino acendeu a vela e se ajoelhou para rezar, com as mãos unidas em palma, levantadas para o céu. Nada de mais pedia naquela prece, apenas um pouco mais de tempo, apenas o tempo necessário para que fizesse o que sempre desejou. Quis sair e andar pelas ruas, mas suas pernas estavam frágeis, seu corpo todo pedia pelo descanso merecido. Alguns corpos dormiam empilhados pelo seu quarto e poucos, além de algumas formas pensamento, podiam presenciar o ato de sublimação. A vela ia a se queimar lentamente, como em um ritual onde o fogo ostentava todo o brilho que saída de seu âmago: o brilho do medo, da ausência, da sutileza de ser singular. E as palavras fluíam na mesma medida, na incerteza da intenção, da fé não inspirada e do tempo que se esvaía... Ele só precisaria de um tempo, para encontrar o seu desejo! Os seus joelhos já estavam marcados, suas mãos trêmulas balbuciavam o som inaudível de seus lábios, seus ouvidos procuravam pelo alto, na busca da prece, da oração para o céu. Finda-...

Nem precisa...

Ele se chama Ailton e veio do Piauí há alguns anos. Conseguiu o serviço de zelador aqui no prédio e substitui a síndica quando ela não está. Ele é baixo, tem uma barriga enorme e exala um cheiro horrível como se sempre estivesse sem meias. Não gosto como ele me olha. Parei de cumprimentá-lo e de chamá-lo pelo nome. Refiro-me, quando necessário, como moço, como "ou", como qualquer coisa do gênero... Já cheguei a chamá-lo de "coisinha". Ele não sabe que eu o ignoro, pois não haveria de ter desenvolvido alguma inteligência para tanto. Mas eu não me importo, sinto-me realizado por ignorá-lo e passar como se não existisse. Ontem eu cheguei e estava completamente transtornado pela linguiça que comi na madrugada. Refiro-me ao alimento, certamente, não ao que imagina ser conotação sexual. Pois bem, estava muito mal que terminei por me esquecer que o ignorava. Cumprimentei-o e o chamei pelo nome. Ele me respondeu com um aceno, sem entender se realmente eu estava ali. Vomitei...

Palavras, palavras, palavras

Neuci é uma negra gorda que mora no sétimo andar. Faladeira... adora visitar os vizinhos e sempre tem uma receita para passar. Assiste a todos os programas de culinária, depois que aposentara do banco por pressão alta. Hoje ela estava no portão quando eu cheguei. Chegou das compras cansada, pois está novamente grávida. Ela tem mais de quarenta anos e não entendeu como após a menopausa conseguiria engravidar... eu a ajudei com as compras no elevador. Neuci me olhou agradecida e sorriu, como naquela música de Maysa... “palavras, palavras, palavras” Até a próxima, E.

Culpa de quem?

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Quero desistir de exaltar a metafísica. Nem sequer vou determinar o que é metafísica, qual é o poder a que se reporta. A hora é agora e o tempo é exatamente aquele que posso mensurar com meu relógio de pulso, que funciona apesar de adquirido nas lojas do comércio paralelo. Não quero pensar em consciência, em valores ou atributos outros que venham justificar: quero apenas falar, factualmente, de situações que pululam aos meus olhos. Chove na capital. Molho-me completamente porque mesmo com um guarda chuva imenso não consigo estar nele por completo. E choro com a chuva porque encontro mendigos e pedaços humanos espalhados no caminho para casa. Choro torrencialmente, como a chuva, porque falo com minha irmã e testemunhamos diversos desabrigados que perderam tudo o que tinham. É certo que vão todos ao abrigo proporcionado pela prefeitura, mas não é o suficiente. A chuva está em São Paulo, corrijo, na periferia de São Paulo: há uma clara divisão entre a “chuva” e os “desastres” que acometem...