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O nada

  Há um silêncio negro que me corta o corpo de maneira que eu perceba o quanto estou só. Não uma solidão apenas física, ilustrada por meu quarto vazio e sem camas, mas uma dor intensa, moral, que me retira qualquer alegria que possa existir. Uma solidão sem vontade, onde o desejo se esvai e a única atração que tenho é de calar-me nesse escuro e permanecer inerte como se fosse partir da vida.   Já não me recordo do riso que possa ter tido, assim como também não sei de efêmeros sonhos que tenham se passado. Nada me seduz e o que faço é comer, num prazer oral desmedido, para que assim o tempo se vá rapidamente. E assim aumentei dez quilos como resposta de meu corpo.   Estou saturado de filosofia e toda administração científica me causa pesadelos diuturnos. O tédio se instaura, como órfão permanente, e não sei mais o que posso fazer para me livrar das companhias que se aproximam sem me tirar o sentimento de solidão. Há uma necessidade desse silêncio negro, ainda que ...

Missa

Os olhos estavam carregados de morte, sabia que cedo ou tarde se perderia no lodo e barro... Sentia a vida abaixo da batina, a castidade o castigava como feitor ao escravo, Sua sede de sangue só seria saciada se afiasse as garras e desnudasse todos os santos...   O corpo em luto se confrontava com o inimigo, Seres vis e grotescos habitavam seus pensamentos bajulando-o de tal maneira que Proteus, o deus das trevas, o abraçava em segredo! Sua lascívia o arrebatava em devaneio e, no meio a missa, ofereceu o sêmen como hóstia e seu desejo como vinho.   Seus olhos não viam as crianças gritando de fome e tampouco as mães que se prostituíam. Em sua face a piedade tornara-se   tirania e   vingança contra todas as falanges angelicais. O altar estava plúmbeo como suas meninas sedentas que procuravam presas pelo recinto, Talvez delirasse, talvez se ocultasse de si próprio... mas vivia, ainda!   Precisaria de um novo corpo após a missa e de um novo reg...

Simples demais

Tudo começa pelo olhar. Ela usa um tênis velho, uma camiseta surrada e uma saia feita de barra de calça de veludo da tia. Não sei exatamente que tipo de veludo ou de gosto ela tem, mas interpreto no olhar que é apenas um contato. Ela diz sobre a combinação de chocolate e canela que irá desfrutar no intervalo e eu digo que prefiro morango com sorvete ou iogurte natural. E tudo é muito natural: o olhar, o tênis e o jeito como eu olho quando ela não está olhando. Acredito que existe algo além do contato.   Também lhe contei sobre meu besouro de estimação. Ela riu sem graça e disse ter um gato, pois isso é mais comum. Eu a acho comum. Incrivelmente comum e adorável. Às vezes me pergunto o que fui fazer na USP senão encontrá-la. Ela não sabe. O que sabe é que há muitos ao seu redor e qualquer um pode ser escolhido, qualquer outro, qualquer que seja simplesmente comum...   Ela cantarola algo e brinca com os cachinhos do cabelo enquanto espera seu chocolate com c...

Carta para A.

Oi A.,   Ontem foi o aniversário de Bertha... fiquei preocupado como fazia tempo que não falava com ela, daí resolvi ligar para saber como estava e terminei por cumprimentá-la por seu aniversário – que nem ao menos me lembrava. Ela está envolvida na novena de Aparecida e parece que esse ano ficarão pelo menos 3 dias na cidade. Ela me pareceu feliz e perguntou quando poderíamos visitá-la. Parece que sarou daquelas dores de cabeça e atualmente pratica judô com a comunidade do bairro. É incrível, A., mas apesar dela morar na Saúde, que não é tão longe assim de minha casa, passamos muito tempo sem nos falar...   Eu soube que o ex-marido andou por rondá-la agora nas férias dos meninos. Ele é realmente um pássaro maldito, pois criou asas e saiu da gaiola para ter outras pessoas ao seu redor. E não é que a Bertha deu a volta por cima? Diz ela que aquelas dores de cabeça estavam diretamente relacionadas ao sumiço do homem... Se ele ainda tivesse morrido ou realmente desaparecido seri...

Nascer

Pensei diversas vezes em mudar o nome. Talvez o nome e o contexto, mas iniciar a mudança de alguma forma. Assim aos poucos, uma coisa de cada vez, uma coisa a cada dia, como uma força motriz que iniciada não poderia mais parar, mas que em pequenas dosagens deixasse sua marca indelével ao final.   E o nome seria Petrus. Isso mesmo. Petrus porque me lembra o entregador que foi ao apartamento onde estava na véspera de meu retiro. Talvez me sinta mais forte com o nome que ora me batizo. Talvez me sinta mais eu mesmo, pois fui quem escolheu o nome. Talvez não me sinta, mas serei quem quiser que eu seja. E serei Petrus, por enquanto. Petrus com essência de Petrus. Petrus porque o nome me seduz e me diz que posso tudo quando realmente desejo.   E tudo não poderia ser além do mundo, pois de alguma forma é preciso sobreviver no mundo. Embora o contato com os homens me deixe menos humano a cada dia, é preciso que existam para que eu saiba quem sou, ou o que me torno, ou o que nunca...

Quinteto

  Culpo os ares provincianos que limpam meu pulmão. Culpo a chuva e as músicas que abomino. Culpo também a inveja que enche meu peito ao ver todos casados e a celebrar os filhos que possuem. Culpo a simplicidade e a busca do aprimoramento, mesmo quando o fim é a única certeza que possuem. Culpo o sol a pino e os salgados servidos com refrigerantes da região. Culpo o carinho materno e os telefonemas familiares às festividades natalinas. Culpo o comércio repleto e os sorrisos que desafiam a economia... culpo a vida que possuem, que cultivam, que esperantam e jubilam.   E depois culparei meus livros. Culparei os fantasmas enterrados que retornam à herança. Culparei quando os busquei e os tornei vivos. Culparei a sinceridade com que me olhavam e pediam socorro. Culparei minha ignorância das palavras curtas e pensamentos retos.   Assim, para celebrar, terei apenas o quinteto abominável que ainda não culparei para que não existam em mim: Axé, funk, sertanejo, rap e forró....

Colóquio

Não saberia a distância entre a filosofia e a poesia sacra. Não saberia sequer se poderia, com minhas tertúlias vespertinas, ter meu nome Petrus ou Paulus... ou mesmo retornar ao continente e saudar meus deuses de outrora.   Há dias em que tudo não passa de poesia e Pessoa invade meus olhos para, ao som de Guardador de Rebanhos, cantar meu sentimento frugal: "Não acredito em Deus porque nunca o vi..." E quando solto meu brado, percebo que nunca estive no mundo. E Pessoa se vai...   Não vou retornar aos vazios. Recuso-me meus vazios. Minhas letras dizem de epifanias nunca vividas, nunca sentidas. Há fantasmas por toda parte de meu ser que reclamam por atenção e outros que se perdem nos dias em que me cerco de livros e letras para passar o tempo. Eu nunca estive no mundo.   Disse uma vez um pequeno que sua garota veio pela internet. O outro, dizia sobre honras de pelos pubianos nunca aparados. E riam, inebriados pelo mundo, enquanto em silêncio eu buscava de Petrus e...