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Parte

Não me lembro de quando deixei de fazer parte. Talvez me faltem as datas e as ocorrências, mas, sobretudo, falta-me o entendimento para saber que estou "de fora". É estranho: todos param e se envolvem em cumprimentos singelos, com beijos no rosto e abraços sentidos como se fossem uma própria família de que não posso mais pertencer.   Eles se encorajam e freqüentam a escola que podem, falam de suas dores e dissidências e atribuem ao acaso a ausência que possuem. São tolos e felizes, vazios e sem as nuances dos que pertencem à alta classe. Invejo-os por não fazer parte. Invejo-os porque não recebo seus beijos e tampouco sei do que sentem sozinhos. Invejo-os porque me cumprimentam formalmente e atribuem à sorte a sorte que tive de sair. É cedo e ainda não sei por onde andei.   Ao chegar a minha casa percebo uma certeza suave que entra pela porta junto à solidão do outono. Há um vento doce que vem do norte e traz em si a mácula da nova vida que tenho. Uma nova vida e um nov...

A despedida do peixe

Há uma pequena abertura no aquário da sala, por onde fugiu meu peixe. Embora ele fosse eminentemente cinza, seu dourado se destacava entre os móveis e a porcelana branca do armário.   Ao perceber sua ausência, tive um pequeno aperto no peito. Ele partiu. Agora minha casa está vazia, a velha cadeira de balanço onde ficava por oras a admirá-lo parece sem sentido e necessidade. Falta o cinza do peixe, o seu dourado e a certeza de que toda manhã se renovaria. Não amanheceu essa noite. Não houve uma renovação de atmosfera e as flores que ontem estavam a enfeitar minhas roupas murcharam pela ausência da luz do peixe. É como se o aperto de meu peito parasse, quando ele estivesse em mim. É como se minha vida fosse poupada, tivesse uma razão de ser ao alimentá-lo todos os dias. Abro a geladeira e não sinto a fome me visitar. Tudo gira, não reconheço minha imagem e aos poucos me desconcerto em mim. Como aquela música. Como aquela diferença entre tudo o que era comum. Meu peixe fugiu. Par...

A Bela e a Rosa

As tardes do centro sempre são povoadas por seres retumbantes de luz. Brilhos e paetês cobrem as belas que se mostram ao crepúsculo, ávidas por serem admiradas e, ao mesmo tempo, tomadas pelos seres que as admiram. São as belas do centro: as bacantes. Usam grandes sapatos com saltos, vestidos curtos e coloridos com pequenos truques que escondem o que carregam no íntimo.   Ontem, pela avenida principal, uma das belas caminhava impávida, olhando intensamente para seu reflexo no pequeno espelho, como se em cada rosto que encontrasse pela rua o avistasse fulgurante. Suas curvas finas se contrastavam com o frio das ruas, por onde seus pensamentos tomavam as formas místicas de seu desejo interior. Usava óculos grandes, unhas imensas e bem pintadas, dedos cobertos de anéis e outras jóias dignas de sua classe.   Mesmo quando tropeçava nos paralelepípedos, mantinha sua pose altiva, capaz de conduzir o último dos distraídos a um banquete real... Tivesse asas e voaria como Ícaro, a...

O nada

  Há um silêncio negro que me corta o corpo de maneira que eu perceba o quanto estou só. Não uma solidão apenas física, ilustrada por meu quarto vazio e sem camas, mas uma dor intensa, moral, que me retira qualquer alegria que possa existir. Uma solidão sem vontade, onde o desejo se esvai e a única atração que tenho é de calar-me nesse escuro e permanecer inerte como se fosse partir da vida.   Já não me recordo do riso que possa ter tido, assim como também não sei de efêmeros sonhos que tenham se passado. Nada me seduz e o que faço é comer, num prazer oral desmedido, para que assim o tempo se vá rapidamente. E assim aumentei dez quilos como resposta de meu corpo.   Estou saturado de filosofia e toda administração científica me causa pesadelos diuturnos. O tédio se instaura, como órfão permanente, e não sei mais o que posso fazer para me livrar das companhias que se aproximam sem me tirar o sentimento de solidão. Há uma necessidade desse silêncio negro, ainda que ...

Missa

Os olhos estavam carregados de morte, sabia que cedo ou tarde se perderia no lodo e barro... Sentia a vida abaixo da batina, a castidade o castigava como feitor ao escravo, Sua sede de sangue só seria saciada se afiasse as garras e desnudasse todos os santos...   O corpo em luto se confrontava com o inimigo, Seres vis e grotescos habitavam seus pensamentos bajulando-o de tal maneira que Proteus, o deus das trevas, o abraçava em segredo! Sua lascívia o arrebatava em devaneio e, no meio a missa, ofereceu o sêmen como hóstia e seu desejo como vinho.   Seus olhos não viam as crianças gritando de fome e tampouco as mães que se prostituíam. Em sua face a piedade tornara-se   tirania e   vingança contra todas as falanges angelicais. O altar estava plúmbeo como suas meninas sedentas que procuravam presas pelo recinto, Talvez delirasse, talvez se ocultasse de si próprio... mas vivia, ainda!   Precisaria de um novo corpo após a missa e de um novo reg...

Simples demais

Tudo começa pelo olhar. Ela usa um tênis velho, uma camiseta surrada e uma saia feita de barra de calça de veludo da tia. Não sei exatamente que tipo de veludo ou de gosto ela tem, mas interpreto no olhar que é apenas um contato. Ela diz sobre a combinação de chocolate e canela que irá desfrutar no intervalo e eu digo que prefiro morango com sorvete ou iogurte natural. E tudo é muito natural: o olhar, o tênis e o jeito como eu olho quando ela não está olhando. Acredito que existe algo além do contato.   Também lhe contei sobre meu besouro de estimação. Ela riu sem graça e disse ter um gato, pois isso é mais comum. Eu a acho comum. Incrivelmente comum e adorável. Às vezes me pergunto o que fui fazer na USP senão encontrá-la. Ela não sabe. O que sabe é que há muitos ao seu redor e qualquer um pode ser escolhido, qualquer outro, qualquer que seja simplesmente comum...   Ela cantarola algo e brinca com os cachinhos do cabelo enquanto espera seu chocolate com c...

Carta para A.

Oi A.,   Ontem foi o aniversário de Bertha... fiquei preocupado como fazia tempo que não falava com ela, daí resolvi ligar para saber como estava e terminei por cumprimentá-la por seu aniversário – que nem ao menos me lembrava. Ela está envolvida na novena de Aparecida e parece que esse ano ficarão pelo menos 3 dias na cidade. Ela me pareceu feliz e perguntou quando poderíamos visitá-la. Parece que sarou daquelas dores de cabeça e atualmente pratica judô com a comunidade do bairro. É incrível, A., mas apesar dela morar na Saúde, que não é tão longe assim de minha casa, passamos muito tempo sem nos falar...   Eu soube que o ex-marido andou por rondá-la agora nas férias dos meninos. Ele é realmente um pássaro maldito, pois criou asas e saiu da gaiola para ter outras pessoas ao seu redor. E não é que a Bertha deu a volta por cima? Diz ela que aquelas dores de cabeça estavam diretamente relacionadas ao sumiço do homem... Se ele ainda tivesse morrido ou realmente desaparecido seri...