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Para pensar...

Homens agindo como mulheres. Homens querendo estar com outros, tocando-se uns aos outros. Estes pervertidos roçando-se uns nos outros. Tocando-se uns aos outros. Mãos másculas... tocando os cachos de cabelos balançantes. Um cigarro ocasional após o barbear. As graves vozes de barítonos... suspirando, sussurrando... Eles se abraçam com fortes braços masculinos, abraçam outros. Apertados.

A feia

Há tempos não se via no espelho. Não se sabia gorda ou magra, alta ou baixa. Por não se enxergar, esquecia-se de si mesma e do mundo: e essa era a grande paz de seu espírito! Sentia-se suficiente em si, não se relacionava com os outros e, por isso, experimentava a solidão singularmente. Era calada. Se lhe falavam, respondia através de monossílabos; se não, permanecia por dias trancada em seu mutismo, com nada a se envolver ao seu redor. Essa era a sua paz que a invadia e a desnudava por se acreditar cega. Fizeram-na acreditar, por insistência, que recobraria a consciência de si mesma ao enxergar. Com a luz a lhe invadir novamente a retina, poderia mudar o seu destino. Aceitou para que lhe permitissem o seu silêncio, enquanto esperava. Quase muda, tomou óculos de avançado grau para que enxergasse como uma garota de sua idade. Não compreendia a necessidade de ser apenas mais uma garota, mas assim se deixou conduzir. E foi então que se descobriu feia. Reconheceu-se magricela, branca como ...

Delivery

Sabia que em alguns minutos seria o fim. Aquele incômodo seria finito e se sentiria leve e em maior paz. Fechou os olhos e as lágrimas caíram livremente. Um pequeno soluço e a certeza de que tudo estaria bem. Resignado deixou-se conduzir. Nu sobre a mesa fria o pulsar tomava fôlego e outras mãos seguravam as suas. Outras mãos tiravam-lhe o sono, as veias, o soro e algo para que não sentisse tanta dor. Estava sóbrio. Sóbrio e lúcido como antes. Sóbrio e cheio de uma esperança viva de que em alguns minutos seria o fim. Talvez não mentisse mais. Não diria a si mesmo que nunca aconteceu. Não diria de problemas desnudos, criados em sua imaginação quando negava sua intenção. Quando dizia que era farsa a realidade que sempre teve, o sentimento que sempre teve e a vontade que sempre negou. Lembrou-se da primeira vez. Lembrou-se de quando se concebeu. Do coito e sua entrega plena àquele que o tirou das trevas do medo. Das trevas da dúvida do que era e sempre foi. Suas comparações esdrúxulas che...

Fluir

Ela fechou os olhos lentamente e deixou-se sangrar. Cerrou-se internamente para que o sangue fluísse de si. Cada gota a se esvaír de seu interior como uma lembrança que ia e vinha. Como uma vida que suspirava e transpirava em si. Ela suavemente se permitia, se conduzia enquanto o sangue vertia de si. Sentia o cheiro de Anne. O doce sabor da juventude de Anne ainda corria em suas veias. Anne, que em delírios tomava seu amor para que se sentisse viva e feliz. Era Anne que saía de suas entranhas enquanto sonhava ali, perdida em um passado que não sabia esquecer. Anne e Su. Su e Anne. Como se tolerou enganar-se tanto tempo. Como pudera amar tão profundamente aquela que profanava sua mãe. Su. Lágrimas correram livre por seu rosto. Lágrimas que cortavam e dividiam sua angústia. Onde estava? Onde se poderia perder senão em si mesma? Fugitiva. Distante por não aceitar quem era. E era como Anne. Jovem como Anne. Tão livre e jovem que ali sentia a vida pela primeira vez. Olhou novamente seu vent...

O cachecol

Eu nunca havia conhecido uma ex-puta.   Não sabia ao certo se elas existiam, ou se eram apenas menções honrosas usadas em ofensas às mães. E conheci Cleuza. Conheci Cleuza sem saber quem era. Morava nas vizinhanças do bairro. Sempre a via recatada, calada. Tinha um ar quase triste, quase discreto. Era uma pessoa quase comum. Sempre quase. Morava com seu marido, Nélio, e seu pequeno cão, cujo nome me olvidei. Sempre me esqueço do nome das coisas. Das pessoas. Mas era Cleuza mesmo seu nome. Seu nome de casada, de puta. Ela tinha um olhar sereno e falava de suas bromélias, enquanto costurava. Ela fazia receitas de milho como ninguém, cuidava dos filhos das vizinhas e quase não saía de casa durante o dia. Cleuza era assim mesmo: boa vizinha, boa costureira e uma boa mão para pamonha. Um dia, em uma festa de família, passei a observar Cleuza. Foi então que percebi o quanto se continha no papel que vivia. Ela escondia seus olhares de soslaio aos solteiros e discretamente media os c...

Salomão Negão

"Seu nome era Salomão. Não como aquele do livro sagrado, que tinha como pressuposto uma sabedoria divina. Era Salomão na simplicidade. Na ignorância. Salomão negão. Era quase um trocadilho. Era quase uma realidade que se expressa em seus gestos toscos da periferia que habitava.   Eu o reconheci na piscina como alguém da região. Ele andava tranqüilamente pelo local, exibindo-se como uma pequena mercadoria que tinha entre as pernas mais que uma ferramenta de trabalho. Era negro. Tão alto quanto rebelde. Tão quente quando o calor da piscina e os gestos obscenos que fazia para atrair a freguesia.   Ele me olhou profundamente e sorriu como animal. Ele demonstrava um cio em que me reconhecia. Ele sabia de meus desejos e, fortunadamente, envolvia-me em uma crosta de lascívia que tanto me excitava. Salomão. Salomão negão. Alto e quente. Magro e feio como são os que habitam o longínquo leste da cidade.   O SESC estava inabitado quando finalmente me aproximei. Ele so...

A Dança do Fogo

Meus armários foram abertos. Joguei fora tudo o que não mais usaria. Joguei fora tudo o que me faria recordar a fraqueza e a dor. Perdi com isso, mas aprendi. Ontem estava solitário e contratei uma puta para massagear minhas costas. Ela me ofendeu, mas eu não me defendi. Senti-me irracional e sujo, como se isso fosse possível. Descobri que ela tinha apenas isso a oferecer: uma cantada barata e um pouco mais que mãos para massagear minhas costas. Ela não era sadia e tampouco merecia meu respeito. A bandida merecia a morte e assim será feito. A bandida merecia com que os céus a cegasse, mas não desejo essa benção ao seu espírito. Rezarei para que tenha um dia um encontro com a luz, assim saberá o mal que fez. Colhi de meu jardim o amargo de suas palavras, mas aprendi com elas. Hoje estou forte, aprendi a rir e coloquei uma fita no pescoço. Talvez isso simbolize a morte da puta. Talvez seja apenas uma fita que sobrou do incêndio de minha casa. Coloquei fogo na casa. Incendiei tudo o que n...