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De profundis

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  Era fiel o pobre tolo, mesmo sozinho na prisão, onde seu amante nunca esteve. E clamava por Cristo, em um devaneio de fé, como se ali pudesse redimir-se do pecado de amar... e era esse seu único delito, pobre tolo, amar sem mácula aquele que um dia o condenou. Profundamente só e reflexivo, encontrava-se consigo mesmo e com as imagens de um inconsciente que abundava em sua consciência, deixando-o em um estado febril e delirante. Não mais o mundo ou a vida aos seus pés, apenas aquelas paredes frias de onde encontraria a própria liberdade: a condenação de ser livre, pois tornava-se quem era e quem deveria ser. Talvez os anos custassem sua juventude, mas não sua mente brilhante que saía pelos poros como vida em abundância. Tornava-se seu próprio Cristo, sem seu amante, sem a lasciva aproximação daqueles que estão presos na falsa liberdade de pertencer ao mundo. Era fiel o pobre tolo, a si mesmo. Não ao amante. Não ao afeto vil que o levaria à loucura, mas ao que se tornava em si mesm...

Um dia, Francisco

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Eu celebro o tempo que tive e a vida que tenho. Eu celebro o que sou e me torno. Eu celebro a mim.  A angústia passou, assim como o leite amargo que já não faz mais sentido… ele também passou, como todos os outros que nada ofereciam.  Eu celebro o tempo que sou, a queda que tenho e a vida que surge… as cores que ficam vívidas e os olhos cansados que precisam de lentes para ver. E agora, as lentes são minhas. Os meus (familiares) passaram, como disse Belchior, estão em casa (deles). Como diz a canção,  os meus cabelos um dia estiveram ao vento, e agora ele está no meu imaginário… o imaginário. Uma realidade interna, daquelas que são construídas pelo inconsciente, onde habitam os demônios de meu inferno. E os anjos do meu céu. E o Adão, negro, que com Eva prova do fruto proibido… da maçã que era banana, que era serpente, que era Satã e também era D’us na minha fábula de senix. Eu celebro o tempo… de quando eu ainda era capaz de amar Marina, ou Bruno, ou qualquer outro que m...

A mediocridade não vivida

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Hoje eu me levantei triste, profundamente triste. Ubatuba me saúda com uma paisagem linda pela janela, vejo o mar que é fascinante. E ainda assim estou triste, melancólico e solitário.  Sinto-me deslocado por gostar do que poucos gostam e estar com pessoas que me cobram para enturmar em seus barulhos, suas bebidas e pela busca desenfreada por prazer sexual. Sinto-me deslocado por não conseguir, ainda que às vezes, ser superficial.  Eu quero falar sobre espiritualidade, sobre filosofia e debates profundos sobre a existência... mas não é possível. Então, sozinho, observando o mar, questiono uma vez mais sobre a vida não vivida... sobre a vida que poderia ter sido com as companhias, as bebidas e a mediocridade que permeia a todos. Não, não é fácil ser diferente. Eu queria só por um momento gostar da mediocridade, do absurdo da mediocridade, do riso fácil e da alegria idiota que está em todos que se deleitam com músicas de funk e bebidas que se repetem... eu juro que queria, só po...

E isso, enfim, irá bastar... Marina

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  Há dias me lembro de você, Marina. Vejo suas fotos antigas e seus olhos nunca brilhavam ao meu lado… mas eu aprendi que recebemos do mundo e das pessoas o reflexo de nossas expectativas internas: e você nada mais me entregou senão o que eu esperava de você. Do que você tinha para entregar. Do que eu acreditava que poderia vir de você. É estranho me lembrar e ainda sentir. É estranho ainda ter emoção. É estranho desejá-la e amá-la e, ao mesmo tempo, desdenhá-la e odiá-la com toda profundidade possível. Sim, eu sei, sou contraditório porque estou machucado. E procurei você em outras pessoas, sem encontrá-la. E continuei a sofrer, calado e no choro solitário da noite, pela rejeição que vivi por me entregar demais. As palavras não são o suficiente, Marina... espero que a dor que senti ainda seja para você uma boa e perene companhia. E isso, enfim, irá bastar.

Mefistófeles e o encontro no deserto

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E então ele me perguntou, nesse deserto, quem eu era. Não, minto, antes, ele me perguntou se eu sabia quem eu era, se eu sabia porque estava ali. Eu me assustei, fiquei calado um momento ou outro, em dúvida sobre a própria jornada. Como se aquela pergunta, simples e direta, me trouxesse um calafrio e um medo profundo por não saber responder - embora a resposta sempre estivesse aqui, clara como a luz do sol escaldante do deserto, onde eu fugia de mim para não me tornar quem sou. Ele riu, como Mefistófeles, e caçou da minha perdição. Rodopiou pelo ar, levantando areia, dizendo que eu nunca sairia dali negando minha natureza... ele riu novamente, uma gargalhada dura que me fazia cair de joelhos diante da grandeza da minha alma, aquela que me conduziu ao deserto para jornada de auto descoberta de mim. Ah, minha alma, minha alma... porque me permite ver o inferno se ainda me assusto com as chamas de fogo que me queimam a carne.  Eu clamava e ele ria de mim. E repetia que eu fugia de mim...

Ser Mulher - Tornar-se Mulher

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Existem vários mitos do feminino, tantos quantos há mulheres para vivenciá-los. Eles podem ser agrupados em grandes tipos e serem representados por divindades em todas as culturas, como a sedutora Vênus, que nasce pura, ou a guerreira Artemis que carrega a sabedoria. Essas mesmas características estão em Ishtar, em uma outra época e cultura, ou em Matamba e Oshun nos mitos africanos. Exemplos para falar de apenas algumas das características do feminino, riquíssimo e vasto com lendas que envolvem desde as senhoras do destino à Grande Mãe que trouxe vida  todo planeta. Musas, senhoras, dona do mistério, guerreiras, símbolos do poder em todas as culturas: eis uma pequena fração do que é o feminino! Reconhecer o próprio feminino é tomar posse do próprio poder, que é criativo, transformador, regenerador, destrutivo e condutor. Conectar-se com os próprios ciclos e com os ciclos do planeta intensifica o poder e a sua expressão, como a Terra escurece-se no inverno e ressurge no verão, al...

A solidão e a liberdade

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Não há liberdade sem conhecer a solidão, sem saber quem é você quando há nada e ninguém que amarre seus pés impedindo a caminhada. A solidão não é um caminho de dor e sofrimento, é o reconhecimento da capacidade de escolha, sem se obrigar a satisfazer a um Outro que pede, ainda que em silêncio, que você seja de uma forma específica, seja uma pessoa específica, tenha um comportamento específico. A solidão liberta quando você se enxerga capaz de agir por si e somente por si, sem que haja qualquer justificativa moral ou ética diferente dos seus próprios valores... valores seus, somente seus, adquiridos ao longo da vida, por influência social e familiar, mas que se transformam em algo seu, consciente, totalmente individual... quem age pela própria ética, também é livre. Quem obedece por medo ou necessidade de pertencer, está com a alma aprisionada na escuridão. A dependência emocional, a necessidade de pertencimento, as amarras que fazem com que suas ações sejam limitadas e seu querer seja...