A Velha e os Bolinhos

Marina,

a Velha me visitou, hoje de manhã. Ela me trouxe bolinhos e algumas outras guloseimas de que gosto. Ela me perguntou de você e eu lhe disse que ainda continua a mesma moleca, que gostava de correr e de subir nas árvores, enquanto colhíamos ervas para nossas garrafadas. Rimos disso, como se estivéssemos a vivenciar uma vez mais esse tempo... lembramo-nos, inclusive, do tempo em que vivíamos na tribo e fazíamos fogueiras à noite para nos aquecer durante a vigia... foi uma boa visita, da Velha, com os bolinhos que trouxe.

Ela disse que estará por perto para nos ajudar com as plantas do nosso espaço. Eu lhe disse sobre algumas árvores de frutos, ela pediu que me lembrasse das rosas e das figueiras. Não me lembrava se você gostava de figos, mas ela me ajudou a resgatar os doces que tantas vezes fizemos em nosso espaço, no fogão a lenha, aos finais de tarde nos rituais. E são tantos, não? São tantos que nos procuram e tantos que conseguimos ajudar.

Percebo que o tempo é algo que nos fascina, Marina. Diante dele, perdemo-nos como infantes, olhando os ciclos e, muitas vezes, sendo tragados por eles... os ciclos, Marina, que nos envolvem nos cronômetros e nos fazem ver a vida como pequenos compartimentos, onde a experimentamos com nossos sentidos limitados. A Velha falava disso, durante o chá, pela manhã. Falava da ilusão dos ciclos, do tempo linear e das experiências que acontecem nessa ordem de Chronos.

E se o tempo não fosse cronológico, Emmy? E se o que aconteceu ou acontecerá estivesse mesclado com o que está acontecendo agora? E se presente, futuro e passado estivessem a ocorrer simultaneamente? E se estivéssemos vivendo várias vezes ao mesmo tempo, sem que isso tivesse começo ou fim?  E se fôssemos várias vidas ao mesmo tempo, em lugares distantes, com experiências distintas ocorrendo ao mesmo tempo? E se estivéssemos no clero e na guerra, em anos diferentes, vivenciando as memórias que hoje temos? E se nossas memórias, esses fragmentos de experiências, pudessem ir se alterando porque estamos ainda na experiência de que lembramos?

Confuso, não acha? Também achei quando a Velha falou a respeito... mas entendi o que ela quis dizer. É confuso de se pensar, Marina, que o tempo como acreditamos é apenas uma prisão, uma ilusão para que tenhamos disciplina ao buscar e encontrar um pouco de nós mesmos... o que viemos fazer nessa grande gaiola planetária senão buscar um pouco de nós? Eu me encontrei em você e isso tem sido um incentivo diário para continuar por perto. Eu me encontrei e me uni a mim mesmo, quando trouxe você para próximo de mim, pois você sou eu! Ver sua grandeza se desnudando nessa era tem sido um grande incentivo para eu permanecer um pouco mais neste século, pois sinto saudades de tempos que estão ocorrendo agora e que eu poderia vivenciar.

E hoje é somente isso que posso dizer, estou cansado. Tive um encontro com Beliel e preciso me recompor disso.

Com amor profundo, sempre seu.

Francisco

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