Por hoje, Insonia
Marina,
há alguns dias penso em escrever algo para você. Sinto que, ao escrever, coloco mais sentimentos nas palavras, parece que um pouco de minha alma vai até você... embora, eu sei, estamos unidos de tal forma que a distância é apenas uma impressão que nos causa Chronos. Mas, como dizia, escrever tem um efeito peculiar em mim: eu coloco um pedaço meu naquilo que crio escrevendo, parece-me que há um filho que é parido quando as palavras tomam vida fora de mim. E isso é bom!
Tive insônia, mais uma vez. Sentia-me distante e ausente, como se o corpo não quisesse parar. Fui vencido pelo cansaço e consegui apagar por um par de horas, enquanto sonhava com os escritos de Hermes, o Trimegistro, que escreveu sobre a busca do Divino. Cada pedaço meu vibrava em sintonia com essa busca que se revela a mim a cada segundo: e me perco, me encontro, me sacio. É de saciedade que meu Espírito está saturado, presumo. Ele está cheio e não deixa meu Corpo dormitar... e será que precisamos, Marina, dormitar?
Levantei-me feliz, preenchido de uma alegria intensa, como se cada pedaço meu estivesse vibrando Amor. Um Amor Divino, Marina, por tudo e por todos. Um afeto que me tomou e arrebatou de forma que não havia cansaço, embora sem dormir. Coloquei-me a trabalhar, os pacientes me esperavam, e tudo parecia mais claro. A comida mais saborosa e o som do vento uma dádiva aos meus ouvidos. Os instintos tranquilizados, Marina, em uma sintonia com o Espírito que tanto almejei.
Dizem alguns filósofos que o egoísmo humano é tamanho que todo conhecimento e tecnologia só faz para intensificá-lo. Muitos buscam o poder e a evolução para que seus desejos possam ser saciados no menor esforço, para que seus instintos sejam satisfeitos e a vida seja bela, dentro do limite que possuem de prazer. O que é o prazer, não? Temos prazeres no instinto e nos sentidos, e isso é bom, sem dúvida. Ficamos horas de nosso dia nos submetendo à busca por esse prazer, quando nos prostituímos em um trabalho ou nos vendemos em uma imagem de sucesso que nada faz senão valorizar os mesmos instintos e limites de vida que já conhecemos.
Há desconhecimento do prazer e do júbilo que é real. E não há real senão pelo Espírito. Não há real senão quando a Alma se une a Mente e encontra o Espírito, como diziam os alquimistas. É uma jornada, aos que realmente buscam. É um caminho de desencontro com o mundo, pois o mundo não é capaz de proporcionar o júbilo que o buscador experimentou e quer voltar a possuir de forma perene... não há perenidade no mundo, pois nele, a experiência de vida é limitada pela morte. Não há morte aos que estão em comunhão com o Divino.
Ter a experiência no nível do Espírito não implica em abandonar o corpo, mas o corpo não é mais capaz de trazer o mesmo nível de gozo aos que conheceram aquela experiência. O corpo, com seus instintos e desejos animais, há de tornar-se mais leve para abrigar o espírito que foi desperto pelo Espírito. O corpo torna-se robusto, porém sutil. Torna-se sadio e as doenças não são mais necessárias para trazer despertamento, pois o próprio espírito aprende em contato com D’us.
Mas, amada Marina, nem todos estão dispostos ou preparados para esse despertar e cabe aos que buscam respeitar aqueles que preferem continuar adormecidos. Tudo tem o tempo certo: a fruta colhida verde não é agradável ao paladar e aquela que passou do ponto, serve para nada senão o descarte... tudo tem o tempo certo e a forma mais adequada. Hoje, meu tempo é de busca, de alegrias e dessa felicidade que hora arromba-me os sentidos. Sou grato por você estar aqui.
Com amor profundo, sempre seu
Francisco
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