O Vazio e Saturno

Marina,

existe um vazio que se apossa de mim. Um vazio intenso, que pega no ventre e vai tomando corpo em meu corpo... como algo que se espalha e toma posse, profundamente, deixando-me calado e em uma grande sensação de solidão. Não existe solidão, certo, Marina? No fundo, estamos todos em nossa própria companhia, pois tudo o que existe representa uma parte de nós, que nem sempre reconhecemos. Estamos juntos, já sei, mas ficarei em meu silêncio, porque nada que eu dissesse seria novo. Talvez o novo não exista, minha doce Marina, porque tudo foi criado a partir de uma ideia que já existia em outro plano... não é o que fazem os deuses e demiurgos? Criam a partir do que já foi criado pela Mente Divina em algum momento.

O resfriado me deixa com o nariz constipado e a cabeça um pouco zonza... acredito que este meu vazio seja para que eu possa ser invadido por outras ideias. É o que imagino - e a imaginação, cara Marina, também é a raiz da Magia, oposto da ilusão de Lethe que faz com que desperdiçamos energia. Magia é a ciência da Alma e do Espírito, pois é a forma como conseguimos nos conectar com a Natureza e aprender com ela... 

Mas, como eu dizia, imagino que venha ser tomado outras ideias e propósitos, ou apenas, vou removendo aqueles pedaços de alma que não me servem mais... exatamente como aprendi com Sakpatá, a versão africana de Saturno. Ele me visitou essa semana, mostrou-me algumas coisas interessantes sobre finitude e finalidade. Sabia, Marina, que nos perdemos nas ilusões justamente para não olharmos nossa própria finitude e nos distrairmos da finalidade de nossa existência? Nós, humanos, perdemos muito tempo com o que não somos porque tememos o que somos... por isso o vazio nos toma, vez ou outra, como uma forma de remover de nós o que não somos - e, tampouco, temos.

Ele, Sakpatá, disse que estamos todos amarrados às teias de Lethe, a deusa grega do esquecimento e da ilusão, presos ao que é passageiro e não perene. Perdemo-nos na ilusão que ela criou, ficamos acreditando que estamos sozinhos e que a solidão é algo a ser rejeitado. Nunca estamos sozinhos, pois tudo o que existe é uma extensão de nós. Você, Marina, é uma extensão minha, meu tudo e meu espírito, como muitas vezes já dissemos... Mas muitos de nós ainda nos perdemos, muitas vezes, na ilusão do prazer que sacia a carne e impede a manifestação do Espírito... perdemo-nos, realmente, em tudo o que não é Espírito por não sermos quem somos. E isso não é ruim, certamente, pois o prazer que vem da carne e sacia a carne nos dá a sensação de vida e o esquecimento da morte - que sempre associamos à dor.

Saturno é quem possui a chave para nos libertar de Lethe, Marina, essa Grande Mãe que nos abriga nessa esfera onde viemos experienciar a existência. É nessa esfera, ou ovo, como dizem alguns, que podemos crescer para chegar ao Divino... e crescer não é negar Lethe, amada minha. Crescer é reconhecer a importância de Lethe e, ao mesmo tempo, entender que ela age enquanto estamos infantes. A Grande Mãe nos abriga, nos abraça e nos ensina a desenvolver o Amor. Ela nos mostra como a vida pode ser diversa, como tudo que existe é Belo e Perfeito. É ela, Lethe, que nos apresenta o mundo e também o Grande Pai, que é o Espírito, quando estamos prontos para entender o seu significado... mas, como Mãe, Lethe sente a nossa falta quando nos afastamos e conclama nossa volta: é quando nos aprisiona, intencionalmente, ao nos apresentar outros entorpecimentos que nos afetam e nos impedem de prosseguir em direção ao Pai.

Quando isso acontece, Saturno, o guardião do tempo, nos desafia a crescer e buscar novamente o Pai. É ele quem nos pode libertar do desejo por Lethe. É quando ele, Saturno, nos coloca face a face com nossa miséria para que despertemos do sono do esquecimento, através do vazio, da angústia, da solidão e do sofrer. É quando somos chamados a olhar nossa nudez, que muitas vezes apresentamos sem nos despir, para encontrar sentido no que nunca vimos antes. Estamos nus, finitos e frágeis, mas sem mais a proteção de Lethe, pois a abandonamos para sair em direção ao Grande Pai. É esse Pai que nos vai preencher, porque somente Ele nos pode dar novamente o júbilo de vida que tivemos um dia. E Saturno, mestre em humanidade, nos desafia para que provemos ser dignos de receber novamente esse Espírito. Ele nos faz encontrar no mais fundo vazio a única luz que nos levará de volta ao caminho da vida, saindo do lago de morte e enxofre que estávamos ser perceber.

Saturno realiza o trabalho de libertação, o trabalho de Perthro, a runa, que hoje abrilhantou meu dia. Mas isso será um novo capítulo, minha amada Marina. Por hoje, basta saber que é preciso o vazio para que deixemos a ilusão e reconheçamos o que somos...

Espero que esteja bem e encontre paz em meio a esse turbilhão. 

Com amor profundo, sempre seu,

Francisco

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