Essa tal angústia

Marina,

um amigo disse-me hoje, pela manhã, sobre a angústia. Ele afirmava que esse sentimento de solidão tem a ver com nosso Espírito, que, muitas vezes, se sente aprisionado em nós. Seria como se Ele, nosso Espírito, estivesse buscando por uma união de volta ao Divino, mas nós nos perdemos na ilusão e não damos atenção a isso...

A angústia, Marina, seria a forma de expressão desse Espírito, dessa saudade que sentimos de D’us, da união com D’us, da presença de D’us em nós. Como se tivéssemos sede desse contato com o Divino, embora, nem sempre, saibamos o que é esse Divino. E o que é o Divino, Marina? O que é o Amor Divino ou a vida em Espírito?

Romanceamos demais a D’us, Marina. Acreditamos que o Amor é algo que fica sempre em euforia, atribuímos a D’us a condição de bom e sequer sabemos que tudo isso é relativo... a ideia de bom e não bom é absolutamente humana. A ideia de amor como euforia e ausência de atribulações é uma criação humana e falaciosa. O Espírito não conhece a dualidade, não conhece a miséria ou o sofrimento... Ele, o Espírito, olha para todas misérias humanas como capítulos de aprendizado, somente. Se ele se angustia, em silêncio, é porque sente falta de estar em Espírito e percebe nossa infantilidade diante de toda maravilha da criação. Ele não se angustia porque o homem sofre, mas porque o homem escolheu sofrer em vez de buscar as coisas do Espírito - que podem coexistir com as coisas da carne. Ninguém precisa negar o mundo!

E D’us não é romântico, Marina. Jamais será. Atributos humanos são insuficientes para o entendimento do Divino e do conceito de Amor. Sorrateamos o conceito e o encerramos na prisão do entendimento humano, onde seres se unem em matrimônio e buscam na carne a expressão do que é não carnal. Os vícios da carne impedem o desenvolvimento do Espírito, pois são parte da obliteração de Lethe. E esses vícios que limitam a sabedoria nos trazem um entendimento racional e superficial do que é Divino. D’us não é romântico, Marina. O Amor não é romântico. A vida não é romântica.

A angústia é sinal e que o Espírito está desperto. A solidão é a manifestação desse Espírito naquele que busca realmente a D’us... solidão não é estar sozinho, minha doce Marina. Jamais estamos sozinhos, pois além de um ao outro, sempre temos a companhia do Espírito. Estar sozinho é uma ilusão... faz parte da falta que tentamos preencher ao encerrar na carne o que não é da carne: por isso o sentimento de estar sozinho, de necessitar de alguém, de precisar da cópula para sentir-se pertencendo a alguém.

Quando as pessoas se angustiam buscam solução para o incômodo. Se, e somente se, a angústia for genuína, encontrarão uma saída.

Falei muito, meu amor. Esteja em paz, sempre.

Com amor profundo, sempre seu.

Francisco

 

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