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A caixa

Não havia muito que dizer: estavam parados sobre a ponte, a observar o trânsito que ia alheio ao que pensavam em silêncio. A palavra vinha seca na garganta e o desejo não sabia ao certo se comum ou simplesmente distante. Olhavam-se com as mãos contidas e sabiam que seria a despedida. Ele se virou para conter a lágrima tolhida e afastou-se, ainda sem nada dizer. Desceu do carro e observou o Outro partir como se tivesse arrancado uma parte de si mesmo. Naquele instante o amou perdidamente. Ele se prometeu que não mais o procuraria, não mais se perderia em direção ao centro por uma nesga de carinho. Que o Outro continuasse perdido com sua exuberância vulgar, própria dos locais que freqüentava, onde as figuras míticas dançavam entre divinas e profanas sem nunca serem desejadas... os homens nunca as procurariam porque não eram fêmeas e elas nunca seriam dignas de mulheres! Falavam com voz alterada, a exagerar em tudo o que faziam e contar vantagem sobre pessoas que nunca tiveram verdadeiram...

O Canto de Ossanha

Leôncio nunca esteve certo sobre sua idade, recolher latinhas dos restos de lixo fazia-o tão indigente quanto aquele que as jogava nas ruas. Às vezes perdia seu próprio nome, entre buzinas e gritos de motoristas apressados que trombavam em seu carrinho humilde, abarrotado de papelão e com um velho rádio que sempre tocava a mesma estação. Quando havia sol, armava-se de óculos escuros. Na chuva, cobria os pés descalços com pedaços de sacolas de mercado e barbantes como cadarços. Era assim: um ser oculto que transitava pelos caminhos paulistanos, totalmente à margem de quem o via e não o percebia entre aquilo que já não mais servia. Ele não se importava. Se sua imagem fosse capaz de despertar pena, seria por não saberem a dimensão em que estava. Aquele corpo franzino, arqueado e amarelado pelo tempo, tinha em si um outro universo cuja divindade poucos se poderiam perceber. Descobriu-se ao acaso, quando se deixou levar pela vizinha Gerusa durante uma das suas crises de bronquite. Ele mesmo...

Vaga Lume - Parte II

Era apenas impressão, não tinha certeza. Nada sabia e sobre nada tinha certeza, tinha apenas a impressão do mesmo jeans rasgado e velho sobre a cadeira, da camiseta regata de cor escura e dos sapatos do outono. Não se lembrava da noite anterior e, tampouco, imaginava o quão distante estava do outono, das estações e de tudo quanto vivera. Até se perguntava se já havia vivido, mas não tinha resposta, era preciso que se descobrisse para imaginar se poderia algo descobrir... E era sempre assim que encontrava as piores respostas! Lucius se deixou envolver pelo lençol e já não se importava com o que sentia ao acordar: seu talo dormitaria e não seria certa a companhia naquele crepúsculo pela manhã. Virou-se para o lado a procura de um resto de cigarro, frustrou-se. Frustrou-se com a ausência de um corpo, de um sorriso sequer que cheirasse a bebida barata do bar de onde veio. Odiou-se! Não queria se levantar e se tornar mais um rosto na multidão da metrópole, na troca da convivência pacífica e...

O peru e a cigana

Nunca tinha pensado em quanto tempo passamos a comer ou a pensar em lembranças distantes. Como mulher, sinto meus dias cheios e os pensamentos fogem da lógica do cotidiano. Ontem, mal havia acordado, deixei as camas de meu apartamento penduradas no varal e desci ao açougue para comprar osso buco para o almoço. Ele não viria comer em casa, mas eu estava em uma manhã totalmente feliz. Uma alegria quase estranha, quase verde. Uma alegria capaz de dizer às flores de meu prédio o quanto as amo, ainda que não possam retribuir meu sentimento da mesma forma. Era uma sensação de plenitude por si, de existir por si. Mesmo sem que houvesse alguém por perto para me dizer que eu existia. Entrei e pedi por uma peça pequena, pois estaria sozinha para o almoço. O moço, cansado, devolveu-me um sorriso amarelo e enigmático, como se não entendesse o que faria com ossos. Seus olhos penetravam-me a pele e corei ao perceber que ele não conseguiria perceber. Talvez lhe faltasse informação, por isso não me im...

A Cabrita Inês

Era Chico. Simples assim: Seu Chico. Um senhor de baixa estatura, gordinho e sorridente que morava pelos arredores da São João com seu amigo Osvaldo. Eram muito conhecidos pelos arredores, pelo jogo do bicho que traziam como distração ou pelas histórias da época em que foram arrolados na Guerra do Paraguai. Osvaldo era mais alto, sisudo com seu bigode e cabeleiras cinza. Sempre dizia de sua família no Paraná, para onde voltaria se conseguisse a sorte grande na milhar. Um dia desses ainda acertaria e mudaria seu destino. A cidade era pacata, aconchegante e sem muitas emoções em seu cotidiano. Embora com o nome de Brisas Suaves em Tupi Guarani, eram as altas temperaturas do verão que a caracterizavam. O fato acontecera há cerca de dois anos, em meados de setembro. Tudo começou com um pagamento inusitado que Seu Osvaldo recebera por ter acertado na milhar da federal: uma pequena cabrita. Não é preciso dizer o quanto isso o deixou louco, já que sonhava com o dinheiro que lhe devolveria a...

Simplesmente Ordinário

Risível: era assim que classificaria Bernardo! Ele estava distante, cheio de uma soberba que lhe era própria e em busca de uma simplicidade que nunca existiu. Ele estava só, mas acreditava que em paz. Na verdade, ele era portador de uma civilidade cínica e contumaz! Retirou sua capa e resolveu caminhar. Desceu. Lembrou-se do tempo em que nada sabia e assim poderia imiscuir-se à multidão de forma negligente, como parte dela. Hoje, com seus 20 anos, mesmo que seus olhos revelassem o turbilhão de seus pensamentos, os seus gestos denotavam que não pertenceria à massa. E sabia disso! Entrou em um canto qualquer e em poucos minutos, avidamente, encontrou-se com uma boca para lhe injetar suas pérfidas sensações de distância e solidão. No escuro e ao som de uma música qualquer, exaltou Eros e entregou-se à luxúria. Por um momento, esqueceu-se de seu nome para, em euforia, despir-se dos conceitos de classe e entregar-se ao comum. Ao final da dança, perguntou-lhe o nome e a convidou para um refr...

Kajal e Tertúlia

Não é tão simples assim me lembrar de Mariana. Dentro de mim ainda paira a força de seu olhar, a saudade de como éramos quando juntos e de tudo o que vivíamos em nosso esforço diário para sermos apenas comuns. Nunca fomos e por isso tudo era contra nós. Hoje quando passo de ônibus pela Avenida da Saudade, vejo ainda o velho cemitério onde a encontrei em êxtase em uma noite de lua cheia, completamente ensandecida e correndo pelos túmulos. Eu vi aquele vulto branco pular sobre as lápides frias e rir descaradamente como se possuída por uma força maior, uma força que lhe arrebatava o senso e a razão para lhe despejar felicidade... nua e totalmente molhada pela chuva, Mariana tinha os olhos muito abertos, cheios de um sentimento que anos depois saberia vir das drogas que usava para ficar lúcida. Sua lucidez era uma grande ironia, o que todos chamavam loucura. O ônibus continua seu trajeto e vira próximo ao asilo Vicente de Paula, a continuar seu percurso em direção ao bairro Matarazzo. Em a...